Sim, meus gamigos, depois de mais de um ano sem esse
tradicional quadro, voltou o On the Charts. E voltou com esse disco, que é (o
melhor do mundo e) um dos melhores do Rush, na minha humilde opinião. Não sei
se já cheguei a falar sobre isso por aqui, mas um dos critérios para o disco
ganhar um On the Charts, além de eu conhecê-lo bem, é ele completar, no mínimo,
20 anos. Entretanto, raros foram os discos que, com 20 anos de vida, ganharam On
the Charts. Dois que posso me lembrar são o Nevermind, do Nirvana, e o Blood
Sugar Sex Magik, dos Peppers (que na real ganhou mais foi uma nota, esses dois
ainda merecem um On the Charts digno). Mas vamos ao que interessa
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Serigrafia do CD remaster de 2007 |
Test for Echo é o décimo sexto disco de estúdio (da melhor
coisa que o Canadá já nos ofereceu) do Rush. Lançado em 10 de setembro de 1996,
apesar de ser um dos discos mais acessíveis do trio canadense, é também mais
uma mudança no som da banda, além de, infelizmente, carregar o peso do trauma
do baterista Neil Peart e ter sido absolutamente esquecido e ignorado nas
últimas três turnês. E, para entender um pouco disso tudo, voltamos no tempo.
O Rush, que nunca foi uma banda de repetir o mesmo som por
mais de dois ou três discos, lançou, em 1984, o Grace Under Pressure, que
iniciou a fase da tecladeira. Fase essa que perdurou até 1987, impregnando o
som de Power Windows, lançado em 1985, e de Hold Your Fire, de 1987. Quem viu o
documentário Beyond the Lighted Stage (que pretendo falar sobre um dia também),
sabe que isso, de certa forma, “incomodou” um pouco o guitarrista Alex Lifeson,
já que o som da banda se tornou completamente dominado pelos teclados.
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Serigrafia do CD original, de 1996 |
Então, em 1989, vem Presto, seguido por Roll the Bones em
1991, dois discos com sonoridade muito parecida. Aqui, mais do que nunca, o
Rush passou a se tornar acessível. Músicas, em sua maioria, de 4 minutos,
acordes abertos, refrões fortes, mas ainda faltava alguma coisa, tanto que a
própria banda, a exemplo da crítica, considera o disco um tanto quanto vazio.
Talvez seja a afinação da bateria e o timbre da guitarra, um tanto quanto
oitentista, mas o que ocorreu foi que, mais uma vez, o Rush partiu pra outro
som.
Em 1993, veio Counterparts. Muito mais pesado, com a volta
de uma guitarra mais forte, foi muito aclamado pelos fãs. Mas, dessa vez, foi a
vez de Neil Peart querer mudar. Segundo ele, o estilo de tocar bateria dele
tava muito oitentista, onde ele era plenamente capaz de manter uma batida
padrão, com perfeição no tempo e na execução, mas não tinha dinâmica.
Assim, ele tomou lições (sim, Neil Peart fazendo aulas de
bateria) com o guru do jazz Freddy Gruber. Claramente a técnica dele mudou para
esse disco, tanto que, além dele começar a usar mais seguidamente o prato de
condução, no seu DVD A Work in Progress, onde ele regravou (ao vivasso) algumas
das linhas das músicas do Test for Echo, a pegada que ele tava usando era a
tradicional (e nos shows até mesmo da turnê do Vapor Trails, seis anos depois,
nas músicas do T4E ele ainda usava traditional grip).

Test for Echo é uma boa música porque, apesar de ter seções
bem definidas, que se alternam durante seus quase seis minutos, essas seções
são claramente baseadas no jogo de luz e sombra que só quem tem um grande
feeling é capaz de fazer. Ahh, e o solo do Lifeson é curtinho, mas é tri. Sem
falar na virada sensacional do Peart logo depois.
A segunda música é Driven. Uma das mais tocadas desse disco
em shows (quem foi nos shows do Rush no Brasil teve a sorte de vê-la ao vivo),
agita um pouco mais as coisas, com o riff de guitarra mais pesado e o andamento
mais intrincado, típico do Rush, mas sem ignorar os momentos mais leves, como o
pré refrão, algo a la Nobody’s Hero. Obviamente, aqui, o destaque absoluto é a
performance de Geddy Lee, com direito a solo de baixo, que ele sempre
improvisava ao vivo.
Half the World, a terceira música, apesar de ser bem comum,
do ponto de vista do Rush, sempre foi uma das minhas preferidas do disco,
porém, sou suspeito pra falar, era uma das que eu mais via o Neil Peart tocar
no A Work in Progress, sei nota por nota na bateria. Mas, mesmo assim, fazendo
uma análise imparcial, apesar de não ter nada muito absurdo de performance, é o
tipo de música boa pro meio do disco. Relativamente curta (tem menos de quatro
minutos), não deixa de ter uma virada aqui e ali, momentos de troca de tempo,
mas mostra que a banda soube explorar o potencial e, ao mesmo tempo, provar que
entende de pop, digamos assim. E, mais perto do final, tem um troço, meio
mandolin, que o Lifeson toca na estrofe, que tem um som muito próximo do
bouzouki, instrumento com o qual ele faz o solo de Workin’ Them Angels, do
Snakes and Arrows.
Seguindo,
temos The Color of Right. Com uma introdução poderosa, que é a mesma
progressão do refrão, é outra música que me cativa, principalmente pela letra,
uma das melhores do disco (e o truquezinho que o Peart faz pra virar a baqueta,
quando para de conduzir no aro e volta pra caixa xD). Pra outros fãs de Rush,
pode ser uma música comum, mas eu valorizo muito o refrão forte dessa música, e
essa coisa da progressão do refrão ser mais sinistra enquanto a do pré refrão é
reflexiva, mais um desabafo.
Se tem alguma música que lembra um pouco o Rush das antigas
é Time and Motion. Confesso que não é das minhas preferidas, mas tem um
instrumental beeeem sinistro e uma coisa meio circular, meio metida a
progressivo, e a linha vocal do Geddy é sensacional. O interessante é que ela
corta completamente o clima das primeiras quatro músicas, por ser mais pesada,
mais sinistrona. Um destaque é a seção do meio, que mistura uma guitarra
pesadíssima com uma outra com efeitos diferentes e calcada nas notas mais
agudas, um jogo de pergunta e resposta sensacional.
A música seguinte é Totem, e bem diferente da sua
antecessora, tem um clima de felicidade que perpassa por todos os seus quase
cinco minutos. Não ouvia tanto ela, mas depois admiti que é um belo som, com
outro bom refrão, e tem muito da pegada do Rush do Snakes and Arrows, na minha
opinião. E posso afirmar que, apesar de novamente ser um solo curto, é um dos
melhores do disco, além do pós solo, que Lifeson usa os harmônicos, dando
aquela nostalgia (Red Barchetta, aquele abraço).
Dog Years, a sétima música, já foi mais agradável aos meus
ouvidos. Gosto dela ainda, é claro, mas comparada às outras, acho que é uma das
mais fracas, ou “menos fortes” do disco. Muita gente que curte Rush acha que
essa letra é lamentável, comparada ao que o Peart já escreveu pra banda.
Realmente, tem melhores, tanto de letra quanto da música em si, mas é uma
música que dá pra ouvir bem de boas.
Mas, se tem um lado bom de Dog Years ser fraquinha, é que
enaltece ainda mais Virtuality, a oitava música. Ao melhor estilo do Rush, com
jogo de luz e sombra, um riff dos mais fortes do disco, a mescla com seções com
uma pegada meio dance, uma letra decididamente mais interessante, sobre
tecnologia e tals, e, pra mim, o maior destaque, a bateria genial do Peart, a
melhor do disco. Vou inclusive deixar o vídeo abaixo, para que entendam do que
estou falando.

E, como se já não fosse o bastante uma música mais pesada
ser uma das melhores do disco, vem Resist, praticamente um poema que o Neil
Peart. Definitivamente a melhor letra do disco, e uma das melhores do Rush,
transformada em uma balada daquelas pras pedras chorarem. Com uma bateria
simples, mas sem abrir mão de algumas características típicas do velho Neil,
violão, piano, e, quando a guitarra entra pesada é pra contribuir com o clima
da música. Perfeita, em todos os sentidos, principalmente no break, onde
ficamos apenas com Geddy e alguns acordes de violão. E isso que essa é a versão
de estúdio, ao vivo, na turnê do Vapor Trails, eles refizeram ela, uma versão
apenas acústica, Geddy e Lifeson, dois violões e voz.
A penúltima música é Limbo, uma instrumental. Gosto
bastante dela, principalmente porque Geddy, como de costume, espanca o baixo
com maestria, mas acho que cinco minutos e meio foram um pouco de exagero
deles. Se ela tivesse os quatro minutos de Leave That Thing Alone, seria mais
apropriado. Perto do final, ela se torna muito repetitiva. Mas mesmo assim, é
uma música interessante, com Geddy usando sua voz como um instrumento e a
banda, como de costume, entregando um trabalho competente nos instrumentos.
Peart, aliás, manda uma virada sensacional lá pelo meio da música, onde para
tudo voltamos ao clima do início.
Sobre Carve Away the Stone, não tenho muito o que opinar.
Nunca fui muito fã dela e até hoje continuo não sendo. Por mim, inclusive, o disco
poderia terminar em Limbo, fechando 10 músicas. Talvez seja como Totem ou Time
and Motion, que eu ainda não ouvi ou prestei atenção suficiente, mas acho que a
banda poderia, se não tirá-la do disco, escolher uma música mais apropriada pro
final. Apesar disso, não é uma música ruim, coisa que acredito não ter visto o
Rush fazer ainda (se bem que tem Grand Designs e Madrigal).
Por hoje é isso. Test for Echo, baita disco, complementado por uma bela
capa e encarte, e mesmo pra quem torce o nariz um pouco pro que o Rush fez
depois dos anos 80, duvido que com um pouco de paciência e boa vontade vocês
não se rendam a esse disco e outros dos anos 90 e 2000.