terça-feira, 31 de maio de 2016

Café com Nata #1: The Getaway vai fazer sucesso. Mas não vai agradar muito.


Quase deixei maio em branco, mas, em algum momento, tinha que voltar. E, sinceramente, acho que a pior coisa que tem é falhar um mês inteiro num blog. Pelo menos uma postagem tinha que ter, então, vamos à ela. Esse temático novo que estreia hoje é um esquema que pretendo fazer quinzenal, talvez semanal. De preferência nas segundas feiras, que é um dia chato, pra não deixar o começo da semana passar em branco. Basicamente, a ideia é uma coluna, estilo jornal, sobre o assunto que me der na telha. Sobre alguma atualidade no rock, sobre algum motivo de discussão entre fãs (coisa nova ou antiga), enfim. Vai ser bem variado. E, como primeiro tema, aproveitei o lançamento de duas novas músicas do novo disco do Red Hot Chili Peppers, The Getaway, para falar um pouco sobre ele. Sendo assim, vamos lá.

Já vou avisando que não estou nem um pouco satisfeito com o que ouvi até agora. Preocupação seria uma palavra mais adequada, e, definitivamente, não é por intolerância, ou porque "sou viúva do Frusciante" ou "poser que curte o Californication". Os Peppers tem uma discografia riquíssima. Tenho comigo, em CD, TODOS os discos lançados após o Blood Sugar Sex Magik, e não tenho os anteriores porque nunca encontrei pra comprar. 

Mas com isso, afirmo que não tenho restrições à discografia da banda, exceto uma ou outra música em alguns discos. Mas no geral, não importa a fase, o guitarrista, a banda sempre teve um som de qualidade, com a sua pegada mais funk e sua energia característica. One Hot Minute? Baita disco. Freaky Styley? Um dos meus preferidos. Mother's Milk? Ótimo, mais pesado que o usual. Até o I'm With You teve bons momentos, apesar de algumas das B-sides terem se mostrado melhores do que músicas que entraram no disco. 

Mas o que todo mundo esperava era uma evolução natural do Josh como guitarrista da banda. Logicamente, assim como foi com o Frusciante, do cara se soltar mais no segundo disco com a banda, depois de adquirir alguma experiência liderando as seis cordas da banda. E, como o I'm With You foi um disco aceitável, e as B-sides mostraram que Josh tinha potencial, já tava todo mundo na expectativa pro novo disco. Mas até o momento, Josh decepcionou. E não está sozinho. Mais decepcionante que o Josh, nessas primeiras duas músicas, só o Chad. Logo vocês entenderão o porquê. 

Comecemos com Dark Necessities, a primeira música que foi lançada no último dia 5. No geral, foi uma música que agradou, e não achei ruim. A ideia da música é boa, Flea FINALMENTE mandou uns slaps, e é a parte mais simples da música no baixo, por incrível que pareça. Anthony tá fazendo a dele, cantando com competência, criando uma boa linha melódica no vocal, apesar de não ser um grande vocalista. Além disso, sinto uma leve influência de músicas como Venice Queen, algo a ver com o andamento, é uma música mais introspectiva, não sei. Mas me lembra algo dos idos de 2002. 

Só que param aqui os elogios. Por outro lado, acho que Flea exagerou no piano, pra mais, e Josh na guitarra, pra menos. Apesar de ser um som mais introspectivo, melódico e tals, não precisava ter tão pouca guitarra. O sentimento é que falta alguma coisa, que o som tá incompleto. E, acima da guitarra, do funk, falta energia, falta vida nesse som. É uma boa ideia, mas a bateria eletrônica do Chad CAGOU a música. E, na real, ele fez uma mistura de bateria eletrônica com acústica. Desnecessário... lembro dos momentos mais acomodados de Roger Taylor no Queen quando penso nessa mistura. Chad é um grande baterista, tem um feeling sensacional. Com certeza apenas uma linha de bateria acústica, com mais prato de condução (e mais volume durante o refrão), seria mais do que o suficiente para enriquecer a música. Infelizmente, a bateria eletrônica mecanizou o som. 



Mas, sinceramente, perto da faixa título, The Getaway, Dark Necessities parece uma Under the Bridge, algo do tipo. The Getaway é RIDÍCULA. Se antes falávamos de uma música que, apesar de ser bem construída, sofreu com alguns erros, agora falamos de uma música que mais parece uma demo (inclusive perguntaram isso no youtube da banda). Aqui, Flea toca com feeling, mas é um baixo simples, Anthony faz o arroz com feijão também e Josh até faz um trabalho interessante, apesar dos muitos efeitos. Até poderia virar uma daquelas músicas que eventualmente entram no setlist, que são legais de ouvir às vezes, sem prestar muita atenção. 

Mas aí chegou o Chad, DE NOVO, e dessa vez simplesmente enfiou uma linha feita com drum machine na música. Não, não tem linha acústica, não tem trabalho braçal, humano. Tem um drum machine. Essa música me lembrou dos momentos mais constrangedores do U2, com o fraquíssimo Pop, e os momentos menos inspirados do Queen, com discos como The Works e A Kind of Magic. Drum machine, no rock, no século 21, NÃO DÁ. Simples. A música parece que não vai a lugar nenhum. São 4 minutos nos quais tu simplesmente não te empolga, em momento algum. A música não muda, não cresce, não joga com luz e sombra. No final, a banda até entra meio que numa outro, com uma melodia diferente. MAS O MALDITO DO DRUM MACHINE SEGUE IGUAL. E essa música me preocupou bastante. Pelo menos quem é realmente viúva do Frusciante deve ter curtido, afinal, é exatamente esse som que ele anda fazendo nos discos do Trickfinger.



Espero profundamente que, como de costume, esses singles sejam o pastiche mais comercial e pop do disco, e que possamos encontrar, pelo menos, algumas pérolas escondidas no disco. Mas não sei se foi a troca de produtor (e o Danger Mouse, produtor que assina o disco com a banda, é notadamente mais novo e voltado para um som mais pop), a preguiça, sei lá, mas o Chad tá preocupante nesse disco. E, se esperávamos por um disco um pouco mais pesado, mais solto, acredito que já podemos pagar a aposta, pois parece que perdemos. 

A amostragem, até agora, foi muito ruim (talvez medíocre defina melhor, considerando que Dark Necessities ainda tem alguma virtude). Mas a esperança é a última que morre. Assim, a minha palavra definitiva sobre o disco só vai surgir depois do dia 17 de junho, data que o disco será lançado. Ahh, pelo menos a capa tá bem maneira, a mais criativa desde o By The Way, no mínimo.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Quando palavras não são necessárias... 29

Já era pra ter passado do 30, mas a preguiça foi tão grande nesses primeiros meses que até essa série, que é uma das mais de boa, foi deixada de lado. Mas agora acabou a preguiça, bora trabalhar e botar as postagens em dia. Mesmo que a época seja de foco nos estudos, porque tá rolando prova.

Opa... eu disse foco? Hum...



Aliás, com certeza vocês podem esperar por mais aparições do Focus por aqui. O som dos caras é sensacional e música instrumental é a especialidade deles. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

On the Charts #28: Os 45 anos de Aqualung


























Sim, desde o último On the Charts já são mais de 8 meses. O grande problema é que, quando crio o planejamento, aparecem muitos discos dignos de entrar nessa seção do blog. Acabo ficando indeciso sobre quais farei ou não e acabo não fazendo nenhum. O que estou pensando em fazer pra mudar é, não importando a data do disco, toda sexta-feira trazer o (ou um dos) disco(s) aniversariante(s) da semana. Assim eu não falto com esse temático, que é um dos maiores sucessos do blog, e não falta material. Lá em 2021, quando eu ainda espero ter o blog, é claro, terei material para fazer On the Charts. Aliás, como estava pensando nesse formato novo, esse On the Charts vai pro blog logo quando ficar pronto. 

Mas chega de papo, vamos ao aniversariante. Aqualung é o quarto disco de estúdio da vasta - e riquíssima - discografia do Jethro Tull. Lançado em 19 de março de 1971, é o disco que, além de garantir um maior sucesso para o grupo liderado por Ian Anderson, começou a moldar um pouco mais precisamente o estilo da banda, que vinha de um muito mais bluesy This Was, disco de estreia, lançado três anos antes, e os bons Stand Up e Benefit, de 1969 e 1970, respectivamente, que ainda tinham como características mais marcantes músicas curtas e Ian Anderson colocando flauta em TUDO que podia.

Encarte do disco
A partir de Aqualung, vemos uma sensível mudança, com a banda usando mais para os solos o diferencial que a flauta traz em seu som, deixando as harmonias a cargo de baixo, guitarra e piano, além de investir fortemente em músicas mais longas, permeadas por trocas de tempo e jogos de luz e sombra, com momentos acústicos e momentos mais pesados. Tanto que em Thick as a Brick, disco seguinte, a banda mostra ao máximo essa faceta um tanto quanto progressiva (além das pitadas de som "medieval", característica da banda em meados dos anos 70). Mas isso é assunto para outra postagem.

Aqualung inicia com a faixa título. Tida por muitos como o maior clássico da banda (inclua eu nesses "muitos"), cria-se toda uma atmosfera de tensão com o vocal (e a letra também, descrevendo o velho e maltrapilho Aqualung como um nojento, pedófilo, ranhento, etc) de Anderson, o riff pesado de Martin Barre e John Evan, trazendo esse som "estranho", misturado, a bateria, muito marcada nos tambores, de Clive Bunker. Até que, após um minuto desse trem desgovernado, ficamos apenas com Anderson e seu violão, cantando também o fato de Aqualung, por outro lado, ser um pobre mendigo que sofreu na vida. Procurando restos de comida no chão, andando por aí, solitário. Nesse momento, quem se destaca é o baixista, Glenn Cornick, com sua linha cativante.

Logo após, mais uma troca de tempo, e aí temos velocidade, um piano sensacional, Anderson cantando novamente sobre a triste realidade de Aqualung, repetindo a letra da parte anterior. Eis que, após algumas voltas, Martin Barre entra com seu clássico solo, que quase foi estragado por Jimmy Page (segundo o próprio Barre, pois ele estava lá, gravando o solo, e Page apareceu do lado de fora da sala, acenando para Martin, e, provavelmente, esperando que recebesse um aceno também). Imagina que chato isso, né? Estar gravando o solo de um dos maiores clássicos da história do rock e Jimmy Page aparecer e quase estragar tudo xD

Mas voltemos à música. Após o solo, temos mais um breve momento mais calmo, e, após mais ou menos um minuto, Martin puxa o riff inicial novamente e a tensão volta, para nos acompanhar até o final da música. Simplesmente sensacional. Aqualung é uma das músicas mais bem construídas da história do rock. Seus seis minutos e meio parecem três, de tão forte que é a imersão quando ouvimos ela, cheia de trocas de tempo e seções rítmicas diferentes. E, o mais curioso de tudo é que é uma das poucas músicas da carreira do Tull que a flauta não aparece em momento algum.

Já em Cross-Eyed Mary, se tem uma coisa que aparece é a flauta. Já começamos com ela, com Anderson repetindo algumas vezes um riff, bem marcante, diga-se de passagem, e, após mais ou menos um minuto, entra toda a banda, pesando a mão, mas com menos tensão que na faixa título. Ao longo da música, Anderson conta a história da protagonista, uma estudante dos últimos anos da escola, provavelmente, que anda com homens ricos, "roubando-os", uma espécie de "Robin Hood de Highgate", como é descrita na letra.

Parte de trás
Interessante é que Aqualung é citado nessa música também, dando a entender que ele observa Mary dos arredores da escola. Além disso, outro ponto a se destacar, como de costume, é a riqueza do instrumental da banda, com uma linha de guitarra (e, consequentemente, de baixo) sensacional, além das viradas ao fim de cada estrote. Outro clássico, que, aliás, senti falta no show de Ian Anderson aqui em Porto Alegre (aliás, quem não sabe sobre o show, só clicar aqui).

A terceira música é Cheap Day Return. Na real, não é tanto assim uma música, Com 1:20, é mais como uma vinheta, uma passagem do disco. Uma vinheta com um violão simplesmente sensacional e uma pequena letra. Um momento um pouco mais tranquilo no disco, mais "pastoral". Acredito que, se Anderson tivesse investido mais, poderia ter virado uma bela música, mas sabe-se lá por que ele manteve ela curtinha assim.

Já Mother Goose, com seus quase 4 minutos, começa bem camponesa também, com a banda entrando mais no seu estilo famoso, de uma música mais medieval. Muito violão, muita flauta, uma percussão ao fundo, e a letra zueira de Ian Anderson. Mais perto do final, Martin Barre entra com uma guitarra, com uma leve distorção. É uma fórmula mais explorada pela banda mais pra frente, em músicas como Jack-in-the-Green. E dá certo, é o estilo mais característico do Tull.

Após Mother Goose, temos Wond'ring Aloud. Estilo Cheap Day Return, é meio como uma vinheta, mas um pouco mais longa, com quase 2 minutos, além da letra ser maior também. Aqui temos uma coisa um pouco mais romântica, uma letra mais cotidiana, sobre, como o título diz, os pensamentos altos do protagonista, sobre ele, sua mulher, o futuro deles. Acompanhado de um instrumental riquíssimo, um dos melhores do disco. Apesar de não ter bateria, temos até alguns violinos ao fundo.

Up to Me é a última música do lado A. Começa meio sinistra, com as risadas de Anderson e um riff de guitarra acompanhado pela flauta, nota por nota, até cair em mais uma levada de violão e o vocal entrar. Apesar disso, essa música lembra mais as primeiras que as últimas duas ou três, pois mescla acústico e elétrico, com um riff de guitarra bem definido. Ainda assim, se fosse apontar uma característica marcante da música é esse meio non sense que ela causa, por causa do seu andamento bem marcado pela guitarra e a flauta, além dessas risadas durante a música.




Começamos o lado B com My God. Música mais longa do disco, com mais de 7 minutos, inicia bem de leve, com o violão fazendo um belo solo, que vai ficando cada vez com um ar mais sinistro, até que Anderson entra, junto com Evan, dando uma atmosfera tensa para a música. Esse clima se mantém até uns dois minutos, quando entra a guitarra de Barre, distorcida, junto da bateria. É uma das músicas mais fortes do disco, bem construída, com um belo solo de flauta, a banda muito bem azeitada. A passagem logo antes do solo de Anderson é sensacional, cheia de paradinhas executadas à perfeição. Passagem essa que se repete durante o solo de flauta, até que tudo para e Anderson resolve humilhar no solo de flauta. Acelera, atrasa, seguido pelo coro (que acredito se tratar com esse tema "religioso" da música), a banda volta, quebrando tudo, nossa. Tive sorte de poder ver ela ao vivo no show, mas acho que, infelizmente, os problemas que Anderson tem pra cantar ao vivo comprometem a experiência. Tanto que, na resenha do show, exaltei muito mais o fato de valer a pena ver Anderson ao vivo pelo fato do cara ser um MESTRE no instrumental.

Seguimos o baile com Hymn 43. Soa como uma crítica mais ácida sobre o mesmo tema de My God - religião. Enquanto a anterior tem esse ar mais profético, sinistro, sua sucessora tem um ar mais escarnecedor, lembra muito as críticas atuais às religiões, sobre a hipocrisia de uma interpretação literal de livros sagrados, ou, ainda mais especificamente, sobre a hipocrisia das pessoas, que não medem esforços para terem um caráter um tanto quanto duvidoso, mas, aos domingos, estão lá, sentadas no primeiro banco da igreja. Um tema que, como disse antes, continua muito atual, mesmo 45 anos depois da música ser lançada. Uma pena que não seja tocada frequentemente.

Outra parte do encarte
Seguindo, temos Slipstream, quase uma "Wond'ring Aloud 2". Pouco mais de um minuto, um estilo bem parecido, com arranjos de cordas, violão e voz, a terceira - e última - das "vinhetas" do disco. O final, meio sem sentido, até que serve como uma boa introdução para Locomotive Breath, penúltima música do disco. Esta, aliás, que começa com um puta solo de piano no início, mostrando toda a técnica de John Evan, acompanhado, a partir dos 40 segundos, por Martin Barre. Segue o solo até mais ou menos um minuto e meio e a banda entra. Na minha opinião, Locomotive Breath é o que temos de mais parecido com a faixa título no resto todo do disco. A batida é bem marcada, a música em si é mais pesada, mas sem perder sua classe. Ainda assim, é apenas uma lembrança de Aqualung, afinal, durante o disco, a grande virtude que a banda mostra é a versatilidade. E porque essa música tem solo de flauta também.

Fechando esse grande disco, temos Wind Up. Se nunca tivesse ouvido ela antes e fosse chutar de que disco ela pertence, diria Stand Up ou Benefit, pois ela me lembra mais os trabalhos anteriores da banda. Boa música, ela começa um pouco mais "triste" do que o resto do disco, mas logo com uns 2 minutos o peso já entra, e a música ganha aquela riqueza instrumental padrão da banda. E aqui, a exemplo da faixa título, Ian Anderson dá uma aula de como até mesmo a entonação da mesma parte da letra em duas seções diferentes da música pode mudar a nossa interpretação. Ahh, não esqueçamos de Martin Barre, fiel escudeiro de Anderson nesses mais de 40 anos de Tull. Aqui, mais uma vez, temos um solo sensacional, cortesia desse grande guitarrista, subestimado, ofuscado pela liderança de Anderson na banda.

E assim termina Aqualung. 43:30 de muita versatilidade, belos solos, ótimas letras, clássicos incontestáveis, grandes passagens de todos os instrumentistas da banda. Quem não conhece Jethro Tull, recomendo fortemente, apesar de apreciar muito o This Was, mais que a maioria dos fãs. O problema é que o debut é muito mais blues, passando mais longe do que a banda viria a ser no auge. Mas enfim, sobe o som, que agora é só curtir esse clássico do Rock. Parabéns pelos 45 anos.


Agora que eu voltei, vou tentar trazer mais duas postagens até sexta. Uma da nossa boa e velha série de instrumentais, que falhou em março, e outra com mais um On the Charts, agora seguindo esse esquema novo. Valeu!!!

segunda-feira, 7 de março de 2016

Aconteceu em Porto Alegre #10: David Gilmour na Arena do Grêmio (Parte 2 - Arthur)

Bem, faz algum tempo desde que a minha primeira parte do relato foi ao ar, mas vamos lá. Quem quiser dar uma relembrada, só clicar aqui.

Faltavam, talvez, cinco minutos para o horário do início do show e a Arena escureceu. Todo mundo, como esperado, gritou, aplaudiu, chorou, não importa qual foi a reação, mas saudou a entrada do mestre no palco. E Gilmour não decepcionou. Logo pra mostrar o cartão de visitas, 5.A.M., primeira música do novo disco, Rattle That Lock. Apenas ele, solando sobre uma cama de teclados. Um solo delicado, repleto de feeling, que contrastava com a imagem daquela Arena, completamente escurecida. Apenas o primeiro de muitos naquela noite. 

E, conforme a ordem do disco, a segunda música foi a nada floydiana Rattle That Lock. Talvez os únicos aspectos que lembrem o Floyd nessa música sejam o fato dela ser uma canção de Gilmour e, é claro, ter um belíssimo solo. Apesar disso, é um belo som, curti de cara, logo quando ouvi pela primeira vez. Também possui um belo clipe, que foi projetado no telão enquanto rolava o som. Aliás, tenho que comentar depois de falar sobre o show em si algumas mancadas da crew do Gilmour, tipo não projetar ele, ou a banda, sei lá, no telão, enquanto não tinha animação pra passar. Afinal, nem todo mundo é milionário e pagou uma banana pra ficar bem pertinho do palco. Mas enfim, seguindo.

A terceira música do set, assim como no disco, é Faces of Stone. E acho que o velho mandou bem em largar com três músicas do trampo novo. Começo do show o pessoal tá aquecendo, achei interessante deixar mais clássicos do Floyd pro meio/final do show. E mesmo sendo uma música do disco solo dele, Faces of Stone tem uma pegada bem mais Floyd do que as anteriores. Começa calma, com um teclado lento e melancólico, e te conquista aos poucos, com violão, vocal, e finalmente entra a banda, com um andamento meio de valsa, uma valsa meio densa.

Logicamente, a essa altura do campeonato, eu devia ser uma das, talvez, 10 mil pessoas (dentre 40 mil, e estou chutando muito alto) que tinha ouvido as músicas antes, e estava apreciando bastante aquele momento do show, afinal, eu sei como é meio, digamos, complicado de acompanhar um show no qual tu não conhece as músicas. Mas né, como esses talvez 30 mil que sobraram estavam bem interessados em filmar o show (como SEMPRE, afinal, a pessoa gasta 200, 300, 600 reais num ingresso de um evento que vai acontecer talvez uma única vez na vida, mas não consegue deixar de filmar o show, mesmo sabendo que teriam dezenas de vídeos do mesmo show no outro dia), não viram problema algum nesse início mais underground, digamos.

Mas aí veio aquele início clássico. Os canais do rádio mudando, o Tchaikovsky dando as caras e, por fim, sintonizamos em Wish You Were Here. Até mesmo pra mim, que estava curtindo o começo do show só com as músicas do disco novo do Gilmour, foi ali o momento de entender a magnitude da coisa. Não é qualquer um, cara. É David Gilmour. O guitarrista do Pink Floyd, uma das maiores bandas de todos os tempos. E ele estava ali, pisando no palco montado no estádio do meu time do coração, na minha cidade. Tocando aquele solo do início que muitos de nós, pretensos músicos (mesmo de outros instrumentos, como no meu caso) já arriscou nas primeiras casas de algum violão vagabundo. Ali que eu percebi do que se tratava tudo isso, toda a espera, a expectativa.

Mas noves fora a análise emocional/sentimental da coisa, Wish You Were Here foi executada à perfeição. Foi o primeiro momento que pude realmente analisar a banda que Gilmour trouxe para a turnê - apesar de nomes como Jon Carin e Guy Pratt serem parte da história do próprio Floyd. E os caras executam os clássicos com extrema competência, sem mexer nos arranjos originais. Fiel ao que Mason, Waters e Wright fariam. A única diferença que notei foi que Gilmour anda acelerando um pouquinho a música, mas coisa muito pouca. O suficiente para encorpar um pouco a canção, eu diria.

E, logo após esse momento extremamente emocionante de Wish You Were Here, com todo mundo cantando, se emocionando, curtindo o momento... a parte mais monótona do show. A Bruna que me perdoe, mas vou ter que discordar dela. A Boat Lies Waiting e The Blue, quinta e sexta músicas do show, respectivamente, podem ser belas composições e ter seu valor... em estúdio. Nada poderia ter soado mais deslocado ao vivo. Posso pensar, de cara, em pelo menos 10 músicas que poderiam ter entrado no lugar dessas duas. Sei que teve gente que até curtiu, mas eu achei meio chato esse momento.

O lado bom é que ouvir aquele tilintar da caixa registradora, quando acabou The Blue, foi animador. Money é um clássico indiscutível, uma das músicas mais cool do Floyd. Talvez ela nem tenha tanta cara de Pink Floyd assim, e justamente esse diferencial faça dela uma música tão boa. Sei que curti demais. Cantei, fiz air drumming (afinal, não é qualquer bateria do Nick Mason que merece um air drumming), cantarolei o solo. O de guitarra, é claro. Mas faça-se justiça ao solo de sax. João de Macedo Mello, br HU3HU3, paranaense, integrante da banda do Gilmour, mandou muito bem. Fez o solo nota por nota, como tem que ser, e ainda assim com personalidade, dando um pouco do seu timbre nas notas que saíam do sax. Baita músico.

Praticamente emendando em Money, como no Dark Side of the Moon, tivemos Us and Them. Outro momento de emocionar o fã de Floyd. João novamente mandou bem demais nessa música, a exemplo da banda, criando aquela atmosfera quase que flutuante. Cortesia dos teclados também, trabalho desenvolvido, originalmente, pelo saudoso Rick Wright. Acho que foi mais ou menos nesse momento, no show, que comentei com o Leão que, se o mundo da música tivesse dado um pouco de sorte e Wright tivesse vencido seu câncer, talvez estivéssemos vendo ele, junto de Gilmour, naquela noite.

In Any Tongue foi a penúltima música do primeiro set. Bem floydiana, e um tanto quanto soturna, teve uma recepção mais morna, provavelmente por estar "espremida" entre vários clássicos do Floyd, afinal, foi antecedida por duas músicas do Dark Side of the Moon e sucedida por High Hopes, a última música do Division Bell, disco derradeiro do Floyd (desconsiderando o The Endless River, é claro). High Hopes também é um baita som, incontestável e tal, mas se pudesse escolher o set, provavelmente ela não seria uma das primeiras opções. Mas é uma música de muita força, tanto que teve uma das recepções mais calorosas do público. Quando terminou, Gilmour, que já havia falado algumas palavras com a gente, sempre agradecendo muito a recepção que estava tendo naquela noite, falou que a banda iria fazer um pequeno intervalo, coisa de 15 minutos.

Enquanto isso, era hora do pessoal ir no banheiro, renovar a energia, comprando uma ceva ou algo pra comer, e os "selfers" aproveitaram pra tirar suas 2837583475 selfies e filmar o palco, é claro. Eu e o Leão estávamos conversando sobre o quão foda estava sendo o show e estávamos lamentando o fato de estar na metade já, afinal, quem não queria ver o Gilmour por mais umas três horas, né? Além disso, a melhor parte do show ainda estava por vir, pois o primeiro set continha mais músicas do Gilmour solo do que do Pink Floyd.


Dito e feito. Pra começar o segundo set, Astronomy Domine, primeira música do primeiro disco do Floyd, The Piper at the Gates of Dawn. Da época que a banda tinha o Syd Barrett. Aliás, apenas o Syd Barrett, Gilmour ainda nem era membro do Floyd, mas era amigo de Syd. E acabou sendo uma bela homenagem de Gilmour para o amigo. Astronomy soou tão forte, tão alta, que, em certo momento, formou uma massa sonora quase inaudível. Versão realmente visceral desse clássico. Isso sem falar no espetáculo visual, o jogo de luz e sombra, seguindo a lógica da música. Sensacional.

Não menos sensacional foi ouvir aquele longo acorde de teclado, seguido pelas primeiras notas de Gilmour, tornando facilmente identificável que estávamos diante de Shine on Your Crazy Diamond, um dos momentos mais esperados da noite. Gilmour deu uma certa encurtada na música, é verdade, e notamos isso na hora, mas não diminuiu a grandeza desse clássico. Aqui, mais uma vez, quem se destacou foi João Mello, trazendo as rasgadas notas de sax do solo, no fim da música. E, novamente, o solo foi nota por nota.


Fat Old Sun veio em seguida. Sei que teve um pessoal que torceu o nariz um pouco, por não ser tããão forte assim pra um show, por ser meio sonolenta, sei lá, mas eu curti. É uma boa música, pouco lembrada, e a banda quebrou tudo no final, foi bem maneiro o arranjo que o Gilmour trouxe pro show, com esse final mais sanguíneo do que na versão do Floyd. Além disso, o efeito visual com o telão redondo todo com um vermelho meio alaranjado, imitando um "velho e gordo Sol" foi bem maneiro. E, ao final da música, a banda FINALMENTE apareceu no telão. Em vez de desligarem a projeção, o pessoal da edição ficou revezando entre os membros da banda, principalmente o baterista e o tecladista.

E, após terminar Fat Old Sun, tudo escureceu, e soava apenas um acorde longo e grave de teclado. A espera foi longa, acho que uns 30 ou 40 segundos, mas quando aquela primeira nota da Fender de Gilmour soou, tive a maior surpresa do show: Coming Back To Life. Não sabia que ela havia sido tocada em Curitiba, e descobrir na hora do show foi sensacional. Cantei do início ao fim. Sério, quase chorei quando descobri que era essa música. E Gilmour até hoje executa ela com perfeição, cantando muito bem, com sua voz e também com sua guitarra.

Após esse desfile de clássicos, que já tinha quase 10 músicas em sequência, Gilmour resolveu arrefecer um pouco os ânimos e executou a calma e jazzística The Girl in the Yellow Dress. Teve gente que não curtiu também, achou que soou deslocada no show, esse tipo de coisa. Eu achei sensacional. Essa música é um dos destaques do Rattle That Lock, tem toda uma sensualidade na letra e na melodia, o sax é sensacional. Seguindo, tivemos Today, a última música solo de Gilmour no show. Isso por si só já era animador, afinal, além de ser uma boa música do Rattle That Lock, ainda teríamos mais uma meia hora, aproximadamente, de Pink Floyd. O lado ruim? Teríamos apenas mais meia hora de show.


Sobre Today, apesar do início com um backing vocal meio sem graça, entramos em uma melodia meio pop, meio oitentista. Quando estava conhecendo as músicas do show, no dia anterior, tive que conferir na playlist se essa era a Sorrow ou não, pois elas estavam juntas, e sabia que Sorrow era bem datada por ser da fase oitentista do Pink Floyd. E, apesar de soar meio datada, não é uma música ruim, seu baixo é bem pronunciado, ela conta com um belo solo de Mr. Gilmour, como de costume, enfim. Sem motivos para reclamar.

Sorrow foi a penúltima música antes do fim (o fim não oficial, é claro). Aquela introdução sinistra, com Gilmour, apenas ele, iluminado pelos canhões de luz, destacado, fazendo sua Stratocaster urrar em notas graves e distorcidas, criava expectativa sobre o que viria quando entrasse toda a banda. E Sorrow, que já é uma baita música na versão original, fica ainda melhor ao vivo, perdendo um pouco desse elemento meio "anos 80" que permeia a sua melodia. Bela escolha, considerando que não é uma música tão badalada na discografia do Floyd, que poderia ter caído fora até mesmo pra Learning to Fly, do mesmo disco que ela.

Pra fechar o set, Run Like Hell. A música que mais me despertava curiosidade, afinal, como eu mesmo dizia, "como vai ser isso aí? Essa é uma música totalmente Roger Waters". Esqueci, porém, que Gilmour é um mestre em bons arranjos. A música continua com o mesmo tom e, em vez dele tentar se esganiçar todo pra alcançar as notas, o velho, marotamente, divide os vocais com o baixista, Guy Pratt. Gilmour canta a linha mais baixa. Pratt, a mais alta. E assim, a música ficou simplesmente SENSACIONAL. Mais bem cantada que a original, diga-se de passagem (não sou muito fã do estilo do Waters de sussurrar/gritar cantar as suas músicas), com um apelo visual muito foda, cheio de luzes, principalmente o círculo de refletores em volta do telão, que girava aleatoriamente, iluminando o público. Tanta iluminação, aliás, que fez os membros da banda usarem óculos escuros no palco, durante essa música.

E então terminou. Mas espera... cadê Comfortably Numb?

Era óbvio que ainda tinha mais por vir. E veio com tudo. Primeiro tivemos Time, também essencial (aliás, o Leão tava esperando mais por ela que por Comfortably Numb). Time foi executada à perfeição, arranjo extremamente próximo do original, solo sensacional, baixo, bateria, enfim, tudo. Um dos melhores momentos do show, com certeza. E, nem bem terminando Time, Gilmour e sua banda já emendaram em Comfortably Numb.

E aqui tive mais um daqueles momentos em que tu percebe a magnitude da coisa. Um impacto tão intenso em mim, que sempre acompanhou o trabalho do Pink Floyd, mesmo tendo nascido em outra época, quanto no tiozão que comprou vários vinis da banda, na época em que foram lançados. Aquela sensação de ver DVDs como o P.U.L.S.E., ficar maravilhado com os efeitos luminosos, os lasers, toda a experiência durante essa música. Algo que, internamente, tu imaginava que nunca fosse acontecer e, de repente, está ali, depois de mais de duas horas de um grande show, contemplando o grandioso ato final, fechando mais do que dignamente o espetáculo.

E Gilmour parecia não querer acabar. Seu famoso segundo solo misturava partes do solo da versão de estúdio com partes cuidadosamente estudadas, executadas e inseridas na música ao longo desses quase 40 anos em que ela fecha os shows de Gilmour, além de alguns improvisos. E as voltas passavam, muitas voltas de um solo maravilhoso, enquanto o público aplaudia e, secretamente, tenho certeza que torcia para, se fosse o caso, aquele solo durar mais 10, 20 minutos.

Mas como a vida não é assim, e o Gilmour tinha compromisso dois dias depois, na Argentina, a nossa belíssima versão de 8 minutos de Comfortably Numb foi a coroação de uma noite simplesmente perfeita, do início ao fim. Agora é torcer pra que, um dia, ele volte pra nos fazer celebrar, mais uma vez, a arte, a música do Pink Floyd. Será bem recebido, sem dúvidas.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Parabéns ao Ilustríssimo: Beatle George


Escrever sobre o George é o mesmo que alguém me pedir para escrever sobre um tema livre: Eu não saberei por onde começar. Ele é meu beatle favorito e é sua primeira dedicação nesse importante blog. 
O engraçado é que tudo começou quando George ouviu por sorte Elvis na vizinhança e então, ficou vidrado para ter uma guitarra. Eu tenho vizinhos que ouvem funk brasileiro contemporâneo, não tenho como ficar viciada por nada. Assim, depois de alguns anos, formou um trio com um irmão e um amigo, e tocando na noite, conheceu Paul e John e assim, o Quarrymen iniciou e depois, de mais de cinco mudanças de nome, numa turnê, o Quarrymen seria os Beatles. Tenho identificação com George, por ser tímido em público e descontraído com os amigos - mas não só por isso. George teve o talento sufocado pelo John e pelo Paul, até mesmo ''Something'' foi cantada pelo Elvis. Os álbuns do quarteto apresentavam poucas composições. Claro, sua carreira solo (músicas) teve mais destaque, acredito que é a melhor do quarteto. Graças a sua viagem toda na Índia e sua mente aberta, George trouxe instrumentos novos às músicas e voltou espiritualizado, ele foi o primeiro cara, na história do rock a fazer um show comunitário (isso em 1971) e mais, ele que tomou a iniciativa de fazer uma canção (All Those Years Ago) em homenagem a John - ele chamou os outros dois beatles e a Linda para participarem juntos. George era querido. Seu primeiro álbum (All Things Must Pass) recebeu mais destaque, e claro, até eu acredito que é o melhor. George enfrentou dificuldades como alguns de seus álbuns (Dark Horse, mais precisamente) serem bem criticados, ''perder'' a esposa para o melhor amigo (mas George ficou bem) e o suposto plágio de My Sweet Lord, uma das maiores complicações. 
George era uma metamorfose ambulante. Foi produtor de filmes da Handmade Films e participou de outra banda, a Traveling Wilburys (que contavam com a presença de Bob Dylan, Roy Orbison e entre outros.). George gravou muitos outros álbuns e eu fico imensamente grata pelo álbum que leva o seu nome. Ele é maravilhoso! 



Não gosto muito de relatar sobre sua morte, foi em 2001. Um momento extremamente respeitoso, pessoal e pacífico. George foi bem. E ainda foi homenageado com shows no ano seguinte e em 2014 (o dinheiro foi doado para uma organização que apoia músicas). Em 2009 teve seu nome na calçada da fama. Basicamente é isso. Basicamente...

E eu como fã, só tenho que agradecer as suas boas mensagens deixadas e suas boas músicas, que acompanham minha vida. Ah! E seu filho, Dhani, é um gato.
Obrigada George. Levarei-o sempre comigo.