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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

On the Charts #31: Os 45 anos do Animals


Bom, cá estou eu aqui, novamente, para falar de mais um clássico aniversariando nesse mês de janeiro. E, convenhamos, este aqui também é daqueles de sentar, colocar no toca discos e apreciar. Para essa jornada, peço que me acompanhem mais uma vez. 

Pra quem não sabe, na última sexta-feira, dia 21 de janeiro, Animals, do Pink Floyd, completou 45 anos de lançamento. E, justiça seja feita, se alguns dos trabalhos do Floyd mostravam uma força criativa mais pronunciada de David Gilmour, esse disco é muito mais a cara de Roger Waters (aqui, inclusive, começou um certo "desconforto" dos outros membros da banda com a "ditadura" de Waters quanto ao processo criativo da banda. Entretanto, pelo menos em relação a esta bolacha e seu sucessor, The Wall - na minha opinião, em menor escala, musicalmente, mas em maior escala artisticamente). 

Fábrica que estampa a capa do disco
Animals possui uma estrutura interessante. Sendo uma releitura do clássico livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, lançado em 1945, Waters faz uma crítica ao capitalismo e, através das três músicas principais do disco, realiza uma separação de classes: os cães, predadores, os porcos, despóticos, e as ovelhas, que obedecem a tudo sem questionar. As três possuem mais de 10 minutos de duração, com elaboradas e diferentes introduções, passagens, solos e etc. Completam o disco Pigs on the Wing, partes 1 e 2, pequenas seções contendo apenas violão e voz, com pouco mais de um minuto de duração, que abrem e fecham o disco. Abordaremos mais detalhadamente tudo isso enquanto colocamos a agulha na bolacha e iniciamos nossa audição, então bora. 

Começamos a nossa jornada por Pigs On the Wing 1. Apesar de extremamente simples, com pouco mais de um minuto de duração, a fórmula de violão e voz, com um manso vocal de Waters, convence. Não há muita coisa a enaltecer musicalmente, pelo fato de ser uma canção realmente simples, mas sabemos que menos é mais. Interessante ressaltar, entretanto, que a fórmula utilizada seria repetida e aprimorada em Mother, um dos destaques do disco seguinte, The Wall. O tempo é parecido, bem como a progressão de acordes. Vejo muito desta música (e de sua segunda parte, ao final do disco) em Mother. Em outras músicas da banda, também, mas mais pronunciadamente em Mother.

Na sequência, temos Dogs, 17 minutos de uma das melhores músicas do Floyd, ocupando todo o restante do lado A do disco. Dentre os muitos épicos do Pink Floyd, vejo uma estrutura mais bem definida nesta aqui, diferente de outros clássicos, como Echoes e Shine on you Crazy Diamond. Amo essas outras músicas, bem como praticamente todas as músicas longas da banda, mas sinto que havia mais improvisação, esticando um pouco mais as músicas. Echoes, por exemplo, possui uma versão editada na qual 7 minutos foram cortados, sem alterar muita coisa em sua estrutura. Em Dogs isso é impossível. Há muitos solos e seções instrumentais, mas enxergo nela um trabalho mais bem amarrado, tal qual o Rush fazia em suas músicas épicas, como Cygnus Book-II: Hemispheres, por exemplo. São 18 minutos que não sentimos passar, tamanha a naturalidade com a qual a banda alonga a faixa. 

Dogs possivelmente se diferencia um pouco das duas músicas seguintes também por ser uma ideia mais antiga. Ainda em 1974 a banda já tocava ao vivo uma primeira versão do que viria a ser este clássico, chamada You've Got to Be Crazy. Provavelmente, pela época e tudo mais, o clima na banda ainda era mais amistoso e Waters e Gilmour conseguiam compor e inserir suas ideias numa boa (ou algo próximo a isso, pelo menos).

Sobre os aspectos musicais, iniciamos Dogs com violão e os "desesperados" vocais de David Gilmour. Aliás, sobre isso, Dogs é a única música do disco em que Gilmour contribuiu com a composição e vocais. Coincidência ou não, é a melhor música dentre as cinco da bolacha. Após alguns versos nessa temática mais agitada, mais desesperada, a banda entra em uma ponte para a seção do primeiro solo, que inicia após pouco mais de 3:30. Com guitarras dobradas e tudo que temos direito no melhor estilo Gilmouriano, o solo é simplesmente memorável. Construído (e muito bem construído, diga-se de passagem), mas, ao mesmo tempo, sem ocupar todo o espaço, assim permitindo que toda a banda se destaque, Gilmour desenha um solo de um pouco mais do que um minuto, no qual a temática meio desesperada pode ser sentida através das notas de sua guitarra. 

Eis que, após esse primeiro solo, temos uma pequena seção na qual a música altera um pouco o feeling, tornando-se mais "relaxada", um pouco mais Floydiana, por assim dizer. Aquela levada típica de Nick Mason, o baixo de Waters trabalhando muito bem com as pausas, Wright afiadíssimo nos teclados, como de costume, e Gilmour volta para um segundo solo, agora um pouco mais voltado para esse feeling diferente no qual a banda entrou. Após mais um belo solo, temos mais alguns versos e entramos na seção mais "improvisada", por assim dizer. 

Após Gilmour cantar "Dragged down by Stone", a última palavra fica repetindo incessantemente (e, a cada repetição, os efeitos aumentam, cada vez mais aproximando a palavra de um latido), enquanto a banda entra em uma seção que inicia praticamente sem bateria, com Mason apenas marcando o tempo no prato de condução. Aqui, meus amigos, eu recomendo fortemente o fone de ouvido. Apesar da banda estar jogando muito com a sombra, num primeiro momento, são muitas nuances. Todos os instrumentos estão fazendo algo interessante aqui, seja a levada um pouco diferente que Mason nos apresenta, seja Wright solando nas teclas, enfim. Aqui, apesar de ser uma seção de 4 minutos, eu acho bem na medida, sem ficar enjoativa. A banda utiliza, aqui, a mesma progressão de acordes do início da música. 

Não à toa, é claro. Ao final desta parte, o violão entra novamente e a música praticamente recomeça, desta vez com Waters nos vocais. Neste momento, já estamos viajando há 12 minutos junto com a banda, e simplesmente não sentimos passar. Waters canta sua estrofe, a banda repete a estrutura daquele primeiro solo e, quando iríamos entrar novamente naquela seção um pouco mais calma, a banda vem com tudo para finalizar este clássico, com uma seção ainda mais "desesperada" (coisa que Waters sabe fazer com maestria). Até pensava em dedicar uma postagem inteira de épicos para Dogs, mas eu me empolguei tanto aqui que acho que não precisa. Clássico absoluto. 


Encarte do disco
Iniciando o lado B, temos Pigs (Three Different Ones). Confesso que esta aqui também me pega bastante, é MUITO boa. Se Dogs tinha uma assinatura forte de Gilmour, Pigs é TOTALMENTE Waters. Um pouco mais curta ("só" 11 minutos), inicia c
om um belíssimo trabalho de Wright no teclado (o que só evidencia a falta que esse monstro faz), com Waters acompanhando em um pequeno "solo" de baixo. Pigs é um dos melhores trabalhos de Waters nas quatro cordas. Além disso, o vocal é gritado, raivoso, wateriano. Do jeito que ele gosta de fazer. A letra transmite uma raiva, uma forma de protesto contra o capitalismo, utilizando-se da metáfora orwelliana dos porcos, que são os comantantes da revolução dos bichos e que, após a revolução, se tornam o novo inimigo, pegando para si muitos dos privilégios. Como falam no livro, alguns animais são mais iguais que os outros. 

Enfim, aqui tudo se desenvolve um pouco mais rápido. Waters canta algumas estrofes e, antes dos quatro minutos, já estamos em uma riquíssima seção instrumental, na qual o grande destaque é Wright, que faz um trabalho sensacional não só utilizando seu instrumento da forma convencional, mas também emulando efeitos que lembram o som emitido pelos porcos, intencionalmente distorcido e de forma a causar o "desconforto" no ouvinte. É uma ambientação perfeita, muito bem construída. Após esse solo (de uns três minutos), a música também praticamente reinicia, de sua introdução, com o teclado e o baixo, para mais uma última estrofe e refrão, e sua finalização, desta vez com Gilmour solando de forma feroz, com uma guitarra bem distorcida, até o final da música, em fade out. É outro puta som, sem sombra de dúvidas. 


Finalizando a trinca de épicos, temos Sheep. Apesar de sempre ter considerado ela como a mais fraca das três, também é uma música com bastante pegada. Ela inicia leve, com o teclado de Wright fazendo um pequeno solo, mas quando entra a banda toda, o som é forte. A levada de Mason aqui é pra frene, lembra um pouco o seu trabalho em One of These Days, do Meddle. Basicamente, não é uma música ruim, longe disso. Mas, das três, ela é a menos impactante, talvez por vir na esteira de duas músicas MUITO boas anteriormente. Sinto que ela é a mais "sem rumo" na sua seção instrumental no meio, por assim dizer. Não que não seja relativamente bem estruturada, mas não impacta como Dogs e Pigs (coincidentemente, as ovelhas, no livro, são os animais com menos personalidade... não sei se foi intencional, mas vai saber). 

Falando em coincidência, os últimos dois minutos da música são de destaque. Coincidentemente onde a guitarra de Gilmour está em evidência em uma espécie de riff criado para esse final, acompanhado de algumas viradas de Mason, que, apesar de simples, sempre são um destaque, considerando que Mason é um adepto quase extremo do "menos é mais". 

Por fim, após esses quase 40 minutos de intensidade, muita música boa e alguns clássicos, chegamos em Pigs on the Wing 2. Instrumentalmente, ela é praticamente igual à primeira, mas possui uma letra diferente. Não há muito o que dizer, ficam as palavras da primeira parte. Gosto de ressaltar que, após essa atmosfera mais pesada das músicas centrais, e suas letras, é interessante a ideia da banda de finalizar com um pouco mais de leveza. É um final muito bom para um disco quase perfeito. 

Uma coisa que lamento até hoje é o fato da banda não ter feito uma versão de Animals para aquela coleção Immersion, que foi lançada em 2011. Lembro que, à época, teci uma espécie de crítica, como se fosse um caça níquel e etc. E talvez seja, ok. Mas o capricho com o qual o Floyd trata sua obra é digno de aplauso, e, considerando a sequência de seus quatro clássicos absolutos (Dark Side of the Moon, Wish You Were Here, Animals e The Wall) e o relançamento de três deles nessa coleção, me pergunto por que não pensaram em fazer o mesmo para o Animals, ainda mais considerando que é um disco de forte apelo conceitual e visual (eles poderiam incluir um porquinho inflável no boxset 😂). Mas acabou passando, infelizmente. Fazer o quê?

Enfim, por hoje era isso, pessoal. Apesar de ter começado com dois On the Charts mais típicos do Nata, de bandas consagradas do rock e tudo mais, teremos um próximo que vai explodir a cabeça de vocês 😵). Vocês não perdem por esperar. Até lá! 


sábado, 15 de janeiro de 2022

On the Charts #30: Os 55 anos do The Doors


Vocês acharam que a volta real oficial ia acontecer com algum outro temático? 

ACHARAM ERRADO! Tá começando o Choque de Cultura, programa cultural, com os maiores nomes do...OPA, PERAÍ. O estagiário se passou. Pelo vacilo, perdão. 

Mas, falando sério... não existia outra possibilidade que não fosse retornar com um On the Charts. Escrever para este temático é praticamente uma terapia. Ponho meus fones de ouvido, coloco para tocar o clássico que está fazendo aniversário e, enquanto ouço as músicas e relembro os diversos momentos de cada disco, vou escrevendo minhas impressões a respeito. 

Só falta um bom café/Martini/vinho para acompanhar a minha "sessão". E um bom toca discos, com um som de qualidade. Mas isso fica pra um outro momento. Hoje vamos sóbrios e de fone de ouvido mesmo. 

O disco aniversariante de hoje (na realidade, do último dia 4) é um clássico absoluto. Estreia de uma das bandas mais influentes e polêmicas dos anos 60, o disco homônimo do The Doors foi gravado em incríveis 6 dias (entre 19 e 24 de agosto de 1966, no Sunset Sound Recorders, em Hollywood) - o que, inclusive, nos faz pensar em como, mesmo com muito menos tecnologia, afinal, estamos falando de quase 60 anos de diferença, um disco levava muito menos tempo para ser gravado, além de custar infinitamente menos (e, muitas vezes, captar os melhores momentos das bandas, justamente pela urgência de trazer composições criativas e conseguir se estabelecer como uma banda de sucesso). Mas isso é história para um outro momento, de repente em um Café com Nata, o dia hoje é para ouvir esse discaço e conversarmos a respeito. 

O disco é composto basicamente de 11 músicas, 6 no Lado A e 5 no Lado B. Exceção feita à última música de cada lado (Light My Fire e The End, respectivamente), as músicas são curtas, entre 2 e 3 minutos, típico do som da época. O Doors soube muito bem surfar na onda da psicodelia, nestas composições mais longas, bem como trazer elementos até mesmo do som da Invasão Britânica, a exemplo do que o The Who fazia na época (inclusive, teve uma postagem sobre o Doors que o Leão chegou a comentar que eles seriam britânicos, o que, claro, não é o caso). 

Isso contribuiu para que o primeiro disco, bem como o som da banda, no geral, fossem extremamente influentes e impactantes à época. O Doors sempre se mostrou uma banda enérgica, tanto em estúdio quanto ao vivo. E sua primeira música de seu primeiro disco não poderia ser outra que não Break On Through (To the Other Side). Seus pouco mais de 2 minutos sintetizam o Doors, é o cartão de visitas perfeito. Tem Jim Morrison cantando, gritando, cuspindo a letra, com sua agressividade e irreverência características, tem solo de teclado de Ray Manzarek, não tem baixo 😂 aliás, até tem baixo, mas quem toca ele é o próprio Manzarek, no teclado. Resumidamente, nasceu clássica. 


Na sequência, temos Soul Kitchen. Aqui, a exemplo de algumas outras músicas, a banda abre uma exceção e contamos com uma bela linha de baixo, gravada por Larry Knechtel, relativamente conhecido músico de estúdio. A pegada da psicodelia dá as caras aqui, ainda que de forma mais tímida, nas estrofes (que parecem diretamente saídas da trilha sonora de algum filme do Austin Powers... bem como praticamente todo este disco, sendo justo). Interessante ressaltar que, quando parece que a coisa vai dar uma desacelerada, vem o refrão, mais gritado e agitado. Diferentemente de The Crystal Ship, a terceira música, que começa e termina tranquila, com uma pegada mais puxada pro que o Doors faria nas músicas mais longas, desacelerando e entrando na vibe. Boa música também, mas considero um pouco abaixo das primeiras duas. 

Twentieth Century Fox é a quarta música da bolacha. Esta novamente conta com a participação de Knechtel no baixo, e aqui podemos afirmar com segurança que a baixaria enriquece muito o som da banda (não só a do Morrison, mas a de quatro cordas mesmo), o que nos faz imaginar como o som da banda seria ainda melhor com um baixista do calibre dos maiores nomes da época, como John Entwistle, Jack Bruce, Noel Redding, entre outros. A música, apesar de não ser de grande destaque, é gostosa de ouvir, um meio termo entre o punch das primeiras e a calmaria de The Crystal Ship. 

Já Alabama Song (Whisky Bar), definitivamente, é o que temos de mais diferente no disco. Além de todos da banda terem gravado backing vocals (além do produtor Paul Rothchild), Manzarek toca um MARXOPHONE (claramente um comunista). Brincadeiras à parte, não sei exatamente o que é um marxophone, mas ele deu um toque um tanto infantil ao som dos teclados. Uma experiência interessante, no mínimo. Talvez funcionasse melhor como uma vinheta no disco, com um minutinho e alguma coisa, não com mais de três. Mas sei lá, depois de beber umas ela deve ficar bem divertida. 

A próxima música, fechando o lado A, dispensa apresentações: Light My Fire. Um dos maiores clássicos da banda, do rock e da música. Manzarek dá um SHOW aqui, dominando completamente seus 7 minutos com absoluta maestria, contando com um solo que dura uns 4, inclusive. Mas como eu sei que vocês já ouviram muito esse som, vale lembrar uma das histórias que provam por A + B porque o Doors era visto, junto com os Stones e o Who, à época, como uma banda de bad boys, transgressores e etc.

O Doors foi convidado pelo Ed Sullivan, uma espécie de Jô Soares dos anos 60 (minha referência para explicar quem era o Sullivan já tá desatualizada, eu sei), para tocarem em seu programa, e a música que a banda escolheu foi justamente Light My Fire. O problema é que, logo no começo da letra, Morrison canta que "girl, we couldn't get much higher", e, num programa de família dos anos 60, isso aí era a própria blasfêmia. 

Pouco tempo antes, os Stones tocaram Let's Spend The Night Together e tiveram que trocar o refrão para "Let Spend Some Time Together" (com direito a Mick Jagger revirando os olhos, em desaprovação, a cada vez que precisava cantar o novo refrão). Pensem, uma referência muito sutil a sexo, e não deixaram rolar, obviamente o Doors precisaria trocar a letra. Reza a lenda que Sullivan sugeriu algo como "girl we couldn't get much better". Morrison aceitou. 

Na hora de tocar a música, o home meteu essa:


Não preciso dizer que a banda foi absolutamente banida do programa e tocou um total de ZERO vezes das seis que dizem que eles teriam para fazer em outras ocasiões. Isso é uma síntese do que era Jim Morrison e também do que é o rock'n roll, convenhamos.

Abrindo o lado B, Back Door Man. Em uma batida que, em certo ponto, até lembra Come Together, dos Beatles, ela tem uma pegada interessante. Será que eles pegaram inspiração daqui? Fica o questionamento. Esta é mais uma das músicas que conta com uma linha de baixo, mas, desta vez, ela é executada pelo próprio guitarrista da banda, Robby Krieger. Bela música, das melhores entre as mais obscuras da bolacha. Já I Looked At You, a música seguinte, já entra um pouco na cota de "mais do mesmo". Tem um certo balanço, mas nada que desperte muito interesse. Não chega a ser ruim, e é uma das músicas mais curtas do disco, anyway. Pra quem tá curtindo a vibe, ela vai muito de boas.

Na sequência, temos provavelmente a melhor música, fora as três clássicas: End of the Night. Ela não só desacelera o ritmo, ela te faz voar, flutuar, mesmo sóbrio. A atmosfera dela é soturna e etérea, o efeito que a banda conseguiu nos instrumentos é absolutamente incrível. Música boa demais, inclusive pra colocar numa playlist daquelas para apagar todas as luzes e só viajar no som (com ou sem drogas). Já Take it as It Comes, penúltima música da bolacha, tem uma pegada meio ao estilo de I Looked at You. Nada demais, mas nada de menos. Sem problemas, I'll take it. De qualquer forma, é a música mais curtinha do disco, em contraste com a próxima.

A próxima, e última música do disco, é The End. Clássica absoluta da banda, possui várias atmosferas diferentes ao longo de seus quase DOZE minutos de duração. Desde o começo, mais com cara de música mesmo, até o momento em que Morrison meio que declama uma poesia e a banda segue como pano de fundo (um modelo que, inclusive, seria explorado pela própria banda, com os poemas de Morrison, nos discos gravados após sua morte). Não há muito o que descrever aqui, é mais uma questão de ouvir e entender. Este modelo até seria repetido em When The Music's Over, mas sem o mesmo impacto. Talvez um dia eu faça um temático apenas sobre uma delas, mas não hoje. 


Bom, por hoje era isso. Postagenzinha beem simples, ainda tentando tirar a ferrugem, mas espero que tenham gostado e que tenha servido para fazer jus a esse discaço. Quem não ouviu ele em homenagem ao 55º aniversário, pegue ele da estante, ponha no teu toca discos, ou coloque para tocar no seu streaming, se desconecte um pouco desse nosso mundo moderno, se deixe levar pela atmosfera dos anos 60... and enjoy!



sábado, 10 de setembro de 2016

On the Charts #29: Os 20 anos do Test for Echo

Sim, meus gamigos, depois de mais de um ano sem esse tradicional quadro, voltou o On the Charts. E voltou com esse disco, que é (o melhor do mundo e) um dos melhores do Rush, na minha humilde opinião. Não sei se já cheguei a falar sobre isso por aqui, mas um dos critérios para o disco ganhar um On the Charts, além de eu conhecê-lo bem, é ele completar, no mínimo, 20 anos. Entretanto, raros foram os discos que, com 20 anos de vida, ganharam On the Charts. Dois que posso me lembrar são o Nevermind, do Nirvana, e o Blood Sugar Sex Magik, dos Peppers (que na real ganhou mais foi uma nota, esses dois ainda merecem um On the Charts digno). Mas vamos ao que interessa
Serigrafia do CD remaster de 2007

Test for Echo é o décimo sexto disco de estúdio (da melhor coisa que o Canadá já nos ofereceu) do Rush. Lançado em 10 de setembro de 1996, apesar de ser um dos discos mais acessíveis do trio canadense, é também mais uma mudança no som da banda, além de, infelizmente, carregar o peso do trauma do baterista Neil Peart e ter sido absolutamente esquecido e ignorado nas últimas três turnês. E, para entender um pouco disso tudo, voltamos no tempo.

O Rush, que nunca foi uma banda de repetir o mesmo som por mais de dois ou três discos, lançou, em 1984, o Grace Under Pressure, que iniciou a fase da tecladeira. Fase essa que perdurou até 1987, impregnando o som de Power Windows, lançado em 1985, e de Hold Your Fire, de 1987. Quem viu o documentário Beyond the Lighted Stage (que pretendo falar sobre um dia também), sabe que isso, de certa forma, “incomodou” um pouco o guitarrista Alex Lifeson, já que o som da banda se tornou completamente dominado pelos teclados.

Serigrafia do CD original, de 1996
Então, em 1989, vem Presto, seguido por Roll the Bones em 1991, dois discos com sonoridade muito parecida. Aqui, mais do que nunca, o Rush passou a se tornar acessível. Músicas, em sua maioria, de 4 minutos, acordes abertos, refrões fortes, mas ainda faltava alguma coisa, tanto que a própria banda, a exemplo da crítica, considera o disco um tanto quanto vazio. Talvez seja a afinação da bateria e o timbre da guitarra, um tanto quanto oitentista, mas o que ocorreu foi que, mais uma vez, o Rush partiu pra outro som.

Em 1993, veio Counterparts. Muito mais pesado, com a volta de uma guitarra mais forte, foi muito aclamado pelos fãs. Mas, dessa vez, foi a vez de Neil Peart querer mudar. Segundo ele, o estilo de tocar bateria dele tava muito oitentista, onde ele era plenamente capaz de manter uma batida padrão, com perfeição no tempo e na execução, mas não tinha dinâmica.

Assim, ele tomou lições (sim, Neil Peart fazendo aulas de bateria) com o guru do jazz Freddy Gruber. Claramente a técnica dele mudou para esse disco, tanto que, além dele começar a usar mais seguidamente o prato de condução, no seu DVD A Work in Progress, onde ele regravou (ao vivasso) algumas das linhas das músicas do Test for Echo, a pegada que ele tava usando era a tradicional (e nos shows até mesmo da turnê do Vapor Trails, seis anos depois, nas músicas do T4E ele ainda usava traditional grip).
Sobre as músicas em si, abrimos o disco com a faixa título. Maior música do disco, tem tudo que eu citei antes, logo de cara. Neil Peart com muito prato de condução, um começo cativante, Alex Lifeson voltando à frente do som, e, algo que não citei antes, Geddy Lee mostrando que a experiência, além da idade, fizeram bem pra sua voz. A partir do Presto, o vocal dele passou a ser MUITO bom, adequado para as melodias das músicas, não mais aquela coisa de querer mostrar que sempre podia gritar mais agudo (não que não fosse legal, mas tinha passado o tempo).

Test for Echo é uma boa música porque, apesar de ter seções bem definidas, que se alternam durante seus quase seis minutos, essas seções são claramente baseadas no jogo de luz e sombra que só quem tem um grande feeling é capaz de fazer. Ahh, e o solo do Lifeson é curtinho, mas é tri. Sem falar na virada sensacional do Peart logo depois.

A segunda música é Driven. Uma das mais tocadas desse disco em shows (quem foi nos shows do Rush no Brasil teve a sorte de vê-la ao vivo), agita um pouco mais as coisas, com o riff de guitarra mais pesado e o andamento mais intrincado, típico do Rush, mas sem ignorar os momentos mais leves, como o pré refrão, algo a la Nobody’s Hero. Obviamente, aqui, o destaque absoluto é a performance de Geddy Lee, com direito a solo de baixo, que ele sempre improvisava ao vivo.

Half the World, a terceira música, apesar de ser bem comum, do ponto de vista do Rush, sempre foi uma das minhas preferidas do disco, porém, sou suspeito pra falar, era uma das que eu mais via o Neil Peart tocar no A Work in Progress, sei nota por nota na bateria. Mas, mesmo assim, fazendo uma análise imparcial, apesar de não ter nada muito absurdo de performance, é o tipo de música boa pro meio do disco. Relativamente curta (tem menos de quatro minutos), não deixa de ter uma virada aqui e ali, momentos de troca de tempo, mas mostra que a banda soube explorar o potencial e, ao mesmo tempo, provar que entende de pop, digamos assim. E, mais perto do final, tem um troço, meio mandolin, que o Lifeson toca na estrofe, que tem um som muito próximo do bouzouki, instrumento com o qual ele faz o solo de Workin’ Them Angels, do Snakes and Arrows.


Seguindo, temos The Color of Right. Com uma introdução poderosa, que é a mesma progressão do refrão, é outra música que me cativa, principalmente pela letra, uma das melhores do disco (e o truquezinho que o Peart faz pra virar a baqueta, quando para de conduzir no aro e volta pra caixa xD). Pra outros fãs de Rush, pode ser uma música comum, mas eu valorizo muito o refrão forte dessa música, e essa coisa da progressão do refrão ser mais sinistra enquanto a do pré refrão é reflexiva, mais um desabafo.

Se tem alguma música que lembra um pouco o Rush das antigas é Time and Motion. Confesso que não é das minhas preferidas, mas tem um instrumental beeeem sinistro e uma coisa meio circular, meio metida a progressivo, e a linha vocal do Geddy é sensacional. O interessante é que ela corta completamente o clima das primeiras quatro músicas, por ser mais pesada, mais sinistrona. Um destaque é a seção do meio, que mistura uma guitarra pesadíssima com uma outra com efeitos diferentes e calcada nas notas mais agudas, um jogo de pergunta e resposta sensacional.


A música seguinte é Totem, e bem diferente da sua antecessora, tem um clima de felicidade que perpassa por todos os seus quase cinco minutos. Não ouvia tanto ela, mas depois admiti que é um belo som, com outro bom refrão, e tem muito da pegada do Rush do Snakes and Arrows, na minha opinião. E posso afirmar que, apesar de novamente ser um solo curto, é um dos melhores do disco, além do pós solo, que Lifeson usa os harmônicos, dando aquela nostalgia (Red Barchetta, aquele abraço).

Dog Years, a sétima música, já foi mais agradável aos meus ouvidos. Gosto dela ainda, é claro, mas comparada às outras, acho que é uma das mais fracas, ou “menos fortes” do disco. Muita gente que curte Rush acha que essa letra é lamentável, comparada ao que o Peart já escreveu pra banda. Realmente, tem melhores, tanto de letra quanto da música em si, mas é uma música que dá pra ouvir bem de boas.

Mas, se tem um lado bom de Dog Years ser fraquinha, é que enaltece ainda mais Virtuality, a oitava música. Ao melhor estilo do Rush, com jogo de luz e sombra, um riff dos mais fortes do disco, a mescla com seções com uma pegada meio dance, uma letra decididamente mais interessante, sobre tecnologia e tals, e, pra mim, o maior destaque, a bateria genial do Peart, a melhor do disco. Vou inclusive deixar o vídeo abaixo, para que entendam do que estou falando.


E, como se já não fosse o bastante uma música mais pesada ser uma das melhores do disco, vem Resist, praticamente um poema que o Neil Peart. Definitivamente a melhor letra do disco, e uma das melhores do Rush, transformada em uma balada daquelas pras pedras chorarem. Com uma bateria simples, mas sem abrir mão de algumas características típicas do velho Neil, violão, piano, e, quando a guitarra entra pesada é pra contribuir com o clima da música. Perfeita, em todos os sentidos, principalmente no break, onde ficamos apenas com Geddy e alguns acordes de violão. E isso que essa é a versão de estúdio, ao vivo, na turnê do Vapor Trails, eles refizeram ela, uma versão apenas acústica, Geddy e Lifeson, dois violões e voz.


A penúltima música é Limbo, uma instrumental. Gosto bastante dela, principalmente porque Geddy, como de costume, espanca o baixo com maestria, mas acho que cinco minutos e meio foram um pouco de exagero deles. Se ela tivesse os quatro minutos de Leave That Thing Alone, seria mais apropriado. Perto do final, ela se torna muito repetitiva. Mas mesmo assim, é uma música interessante, com Geddy usando sua voz como um instrumento e a banda, como de costume, entregando um trabalho competente nos instrumentos. Peart, aliás, manda uma virada sensacional lá pelo meio da música, onde para tudo voltamos ao clima do início.

Sobre Carve Away the Stone, não tenho muito o que opinar. Nunca fui muito fã dela e até hoje continuo não sendo. Por mim, inclusive, o disco poderia terminar em Limbo, fechando 10 músicas. Talvez seja como Totem ou Time and Motion, que eu ainda não ouvi ou prestei atenção suficiente, mas acho que a banda poderia, se não tirá-la do disco, escolher uma música mais apropriada pro final. Apesar disso, não é uma música ruim, coisa que acredito não ter visto o Rush fazer ainda (se bem que tem Grand Designs e Madrigal).


        Por hoje é isso. Test for Echo, baita disco, complementado por uma bela capa e encarte, e mesmo pra quem torce o nariz um pouco pro que o Rush fez depois dos anos 80, duvido que com um pouco de paciência e boa vontade vocês não se rendam a esse disco e outros dos anos 90 e 2000. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

On the Charts #28: Os 45 anos de Aqualung


























Sim, desde o último On the Charts já são mais de 8 meses. O grande problema é que, quando crio o planejamento, aparecem muitos discos dignos de entrar nessa seção do blog. Acabo ficando indeciso sobre quais farei ou não e acabo não fazendo nenhum. O que estou pensando em fazer pra mudar é, não importando a data do disco, toda sexta-feira trazer o (ou um dos) disco(s) aniversariante(s) da semana. Assim eu não falto com esse temático, que é um dos maiores sucessos do blog, e não falta material. Lá em 2021, quando eu ainda espero ter o blog, é claro, terei material para fazer On the Charts. Aliás, como estava pensando nesse formato novo, esse On the Charts vai pro blog logo quando ficar pronto. 

Mas chega de papo, vamos ao aniversariante. Aqualung é o quarto disco de estúdio da vasta - e riquíssima - discografia do Jethro Tull. Lançado em 19 de março de 1971, é o disco que, além de garantir um maior sucesso para o grupo liderado por Ian Anderson, começou a moldar um pouco mais precisamente o estilo da banda, que vinha de um muito mais bluesy This Was, disco de estreia, lançado três anos antes, e os bons Stand Up e Benefit, de 1969 e 1970, respectivamente, que ainda tinham como características mais marcantes músicas curtas e Ian Anderson colocando flauta em TUDO que podia.

Encarte do disco
A partir de Aqualung, vemos uma sensível mudança, com a banda usando mais para os solos o diferencial que a flauta traz em seu som, deixando as harmonias a cargo de baixo, guitarra e piano, além de investir fortemente em músicas mais longas, permeadas por trocas de tempo e jogos de luz e sombra, com momentos acústicos e momentos mais pesados. Tanto que em Thick as a Brick, disco seguinte, a banda mostra ao máximo essa faceta um tanto quanto progressiva (além das pitadas de som "medieval", característica da banda em meados dos anos 70). Mas isso é assunto para outra postagem.

Aqualung inicia com a faixa título. Tida por muitos como o maior clássico da banda (inclua eu nesses "muitos"), cria-se toda uma atmosfera de tensão com o vocal (e a letra também, descrevendo o velho e maltrapilho Aqualung como um nojento, pedófilo, ranhento, etc) de Anderson, o riff pesado de Martin Barre e John Evan, trazendo esse som "estranho", misturado, a bateria, muito marcada nos tambores, de Clive Bunker. Até que, após um minuto desse trem desgovernado, ficamos apenas com Anderson e seu violão, cantando também o fato de Aqualung, por outro lado, ser um pobre mendigo que sofreu na vida. Procurando restos de comida no chão, andando por aí, solitário. Nesse momento, quem se destaca é o baixista, Glenn Cornick, com sua linha cativante.

Logo após, mais uma troca de tempo, e aí temos velocidade, um piano sensacional, Anderson cantando novamente sobre a triste realidade de Aqualung, repetindo a letra da parte anterior. Eis que, após algumas voltas, Martin Barre entra com seu clássico solo, que quase foi estragado por Jimmy Page (segundo o próprio Barre, pois ele estava lá, gravando o solo, e Page apareceu do lado de fora da sala, acenando para Martin, e, provavelmente, esperando que recebesse um aceno também). Imagina que chato isso, né? Estar gravando o solo de um dos maiores clássicos da história do rock e Jimmy Page aparecer e quase estragar tudo xD

Mas voltemos à música. Após o solo, temos mais um breve momento mais calmo, e, após mais ou menos um minuto, Martin puxa o riff inicial novamente e a tensão volta, para nos acompanhar até o final da música. Simplesmente sensacional. Aqualung é uma das músicas mais bem construídas da história do rock. Seus seis minutos e meio parecem três, de tão forte que é a imersão quando ouvimos ela, cheia de trocas de tempo e seções rítmicas diferentes. E, o mais curioso de tudo é que é uma das poucas músicas da carreira do Tull que a flauta não aparece em momento algum.

Já em Cross-Eyed Mary, se tem uma coisa que aparece é a flauta. Já começamos com ela, com Anderson repetindo algumas vezes um riff, bem marcante, diga-se de passagem, e, após mais ou menos um minuto, entra toda a banda, pesando a mão, mas com menos tensão que na faixa título. Ao longo da música, Anderson conta a história da protagonista, uma estudante dos últimos anos da escola, provavelmente, que anda com homens ricos, "roubando-os", uma espécie de "Robin Hood de Highgate", como é descrita na letra.

Parte de trás
Interessante é que Aqualung é citado nessa música também, dando a entender que ele observa Mary dos arredores da escola. Além disso, outro ponto a se destacar, como de costume, é a riqueza do instrumental da banda, com uma linha de guitarra (e, consequentemente, de baixo) sensacional, além das viradas ao fim de cada estrote. Outro clássico, que, aliás, senti falta no show de Ian Anderson aqui em Porto Alegre (aliás, quem não sabe sobre o show, só clicar aqui).

A terceira música é Cheap Day Return. Na real, não é tanto assim uma música, Com 1:20, é mais como uma vinheta, uma passagem do disco. Uma vinheta com um violão simplesmente sensacional e uma pequena letra. Um momento um pouco mais tranquilo no disco, mais "pastoral". Acredito que, se Anderson tivesse investido mais, poderia ter virado uma bela música, mas sabe-se lá por que ele manteve ela curtinha assim.

Já Mother Goose, com seus quase 4 minutos, começa bem camponesa também, com a banda entrando mais no seu estilo famoso, de uma música mais medieval. Muito violão, muita flauta, uma percussão ao fundo, e a letra zueira de Ian Anderson. Mais perto do final, Martin Barre entra com uma guitarra, com uma leve distorção. É uma fórmula mais explorada pela banda mais pra frente, em músicas como Jack-in-the-Green. E dá certo, é o estilo mais característico do Tull.

Após Mother Goose, temos Wond'ring Aloud. Estilo Cheap Day Return, é meio como uma vinheta, mas um pouco mais longa, com quase 2 minutos, além da letra ser maior também. Aqui temos uma coisa um pouco mais romântica, uma letra mais cotidiana, sobre, como o título diz, os pensamentos altos do protagonista, sobre ele, sua mulher, o futuro deles. Acompanhado de um instrumental riquíssimo, um dos melhores do disco. Apesar de não ter bateria, temos até alguns violinos ao fundo.

Up to Me é a última música do lado A. Começa meio sinistra, com as risadas de Anderson e um riff de guitarra acompanhado pela flauta, nota por nota, até cair em mais uma levada de violão e o vocal entrar. Apesar disso, essa música lembra mais as primeiras que as últimas duas ou três, pois mescla acústico e elétrico, com um riff de guitarra bem definido. Ainda assim, se fosse apontar uma característica marcante da música é esse meio non sense que ela causa, por causa do seu andamento bem marcado pela guitarra e a flauta, além dessas risadas durante a música.




Começamos o lado B com My God. Música mais longa do disco, com mais de 7 minutos, inicia bem de leve, com o violão fazendo um belo solo, que vai ficando cada vez com um ar mais sinistro, até que Anderson entra, junto com Evan, dando uma atmosfera tensa para a música. Esse clima se mantém até uns dois minutos, quando entra a guitarra de Barre, distorcida, junto da bateria. É uma das músicas mais fortes do disco, bem construída, com um belo solo de flauta, a banda muito bem azeitada. A passagem logo antes do solo de Anderson é sensacional, cheia de paradinhas executadas à perfeição. Passagem essa que se repete durante o solo de flauta, até que tudo para e Anderson resolve humilhar no solo de flauta. Acelera, atrasa, seguido pelo coro (que acredito se tratar com esse tema "religioso" da música), a banda volta, quebrando tudo, nossa. Tive sorte de poder ver ela ao vivo no show, mas acho que, infelizmente, os problemas que Anderson tem pra cantar ao vivo comprometem a experiência. Tanto que, na resenha do show, exaltei muito mais o fato de valer a pena ver Anderson ao vivo pelo fato do cara ser um MESTRE no instrumental.

Seguimos o baile com Hymn 43. Soa como uma crítica mais ácida sobre o mesmo tema de My God - religião. Enquanto a anterior tem esse ar mais profético, sinistro, sua sucessora tem um ar mais escarnecedor, lembra muito as críticas atuais às religiões, sobre a hipocrisia de uma interpretação literal de livros sagrados, ou, ainda mais especificamente, sobre a hipocrisia das pessoas, que não medem esforços para terem um caráter um tanto quanto duvidoso, mas, aos domingos, estão lá, sentadas no primeiro banco da igreja. Um tema que, como disse antes, continua muito atual, mesmo 45 anos depois da música ser lançada. Uma pena que não seja tocada frequentemente.

Outra parte do encarte
Seguindo, temos Slipstream, quase uma "Wond'ring Aloud 2". Pouco mais de um minuto, um estilo bem parecido, com arranjos de cordas, violão e voz, a terceira - e última - das "vinhetas" do disco. O final, meio sem sentido, até que serve como uma boa introdução para Locomotive Breath, penúltima música do disco. Esta, aliás, que começa com um puta solo de piano no início, mostrando toda a técnica de John Evan, acompanhado, a partir dos 40 segundos, por Martin Barre. Segue o solo até mais ou menos um minuto e meio e a banda entra. Na minha opinião, Locomotive Breath é o que temos de mais parecido com a faixa título no resto todo do disco. A batida é bem marcada, a música em si é mais pesada, mas sem perder sua classe. Ainda assim, é apenas uma lembrança de Aqualung, afinal, durante o disco, a grande virtude que a banda mostra é a versatilidade. E porque essa música tem solo de flauta também.

Fechando esse grande disco, temos Wind Up. Se nunca tivesse ouvido ela antes e fosse chutar de que disco ela pertence, diria Stand Up ou Benefit, pois ela me lembra mais os trabalhos anteriores da banda. Boa música, ela começa um pouco mais "triste" do que o resto do disco, mas logo com uns 2 minutos o peso já entra, e a música ganha aquela riqueza instrumental padrão da banda. E aqui, a exemplo da faixa título, Ian Anderson dá uma aula de como até mesmo a entonação da mesma parte da letra em duas seções diferentes da música pode mudar a nossa interpretação. Ahh, não esqueçamos de Martin Barre, fiel escudeiro de Anderson nesses mais de 40 anos de Tull. Aqui, mais uma vez, temos um solo sensacional, cortesia desse grande guitarrista, subestimado, ofuscado pela liderança de Anderson na banda.

E assim termina Aqualung. 43:30 de muita versatilidade, belos solos, ótimas letras, clássicos incontestáveis, grandes passagens de todos os instrumentistas da banda. Quem não conhece Jethro Tull, recomendo fortemente, apesar de apreciar muito o This Was, mais que a maioria dos fãs. O problema é que o debut é muito mais blues, passando mais longe do que a banda viria a ser no auge. Mas enfim, sobe o som, que agora é só curtir esse clássico do Rock. Parabéns pelos 45 anos.


Agora que eu voltei, vou tentar trazer mais duas postagens até sexta. Uma da nossa boa e velha série de instrumentais, que falhou em março, e outra com mais um On the Charts, agora seguindo esse esquema novo. Valeu!!!

sexta-feira, 3 de julho de 2015

On the Charts #27: Os 35 anos do The Game

Sim, após mais ou menos cinco meses (e nove On the Charts), temos outro disco aniversariante do Queen. E a regra é clara: postagem boa do Queen tem que fazer sucesso, então já sabem ;) como é melhor eu não me enrolar muito por aqui, pra não dar preguiça de continuar a postagem, já vamos de cara ao que interessa.

The Game é o oitavo disco de estúdio do Queen, lançado em 30 de junho de 1980. Desde sua duração até sua sonoridade, passando pelas composições, é um disco que deixa muito claro o rumo do tipo de música que o Queen faria nos anos 80. É um divisor de águas da carreira da banda. Apesar de ser o primeiro lançamento a não conter a frase "No synthesizers!" na capa/verso, não chega a ser algo como o Hot Space, onde o som foi completamente tomado pelos sintetizadores. Aqui eles jogam a favor da banda, servindo como efeitos sonoros, mais um recurso para ser utilizado no estúdio. E, por outro lado, a banda já não tem aquela coisa da pompa, da classe, da pretensão dos lançamentos setentistas, como A Night at the Opera, News of the World e outros. Não é à toa que a crítica da Rolling Stone (apesar deles historicamente terem sido meio pau no cu com a banda enquanto estava na ativa) elogia muito The Game, afirmando que "é bom ouvir um disco do Queen que contenha canções, não hinos". E, realmente, a acessibilidade do disco, a facilidade de digerir suas canções é imensamente superior aos lançamentos anteriores. Até mesmo o Jazz, que já tinha uma pequena mudança no som, em direção a essa faceta mais pop. 

Quanto a vendagens... bem, essa maior acessibilidade do som se reflete em números também. The Game é o disco mais vendido do Queen nos EUA, com quatro milhões de cópias comercializadas, além de ser o único número 1 da banda nos 200 da Billboard. Foi gravado no Musicland Studios, em Munique, entre junho e julho de 1979 e entre fevereiro e maio de 1980, e produzido por Reinhold Mack (o cara que ficaria conhecido por estragar o som da banda no Hot Space). Eu, particularmente, aprecio muito esse disco, justamente pelo fato do melhor (não confundam com o maior) registro ao vivo da banda - o Rock Montreal - ter sido feito com um setlist baseado majoritariamente em músicas desse disco, e pelo fato de, até aqui, a discografia do Queen ser irretocável. Mas o resto da discografia deixemos para outro dia. 

Começamos os trabalhos com Play the Game. Aqui o sintetizador já dá o ar da graça... aliás, os primeiros 15 segundos são SÓ de sintetizador, até, abruptamente, Freddie entrar, voz e piano, com a bela letra dessa música. Uma melodia bem simples, mas cativante, repleta de backing vocals sensacionais, como de costume. Deacon é quem manda muito bem nesse som, durante as estrofes fazendo uma progressão oitavada, seguindo o vocal de Freddie. Aliás, apesar do resultado da música ser muito bom, a versão ao vivo, principalmente do Rock Montreal, é muito melhor, mais viva e menos engessada (acostumem-se com essa minha afirmação sobre as versões ao vivo... produção do Mack). A ideia de começar com um "solo" de piano caberia inclusive na versão de estúdio, em vez do sintetizador. Mas, como disse ali em cima, o resultado é sensacional, pois, apesar de, nesse começo, ainda não parecer esse novo Queen que eu falei, a música é mais enxuta, mais fácil de digerir, mesmo tendo uma certa pompa.

Mas não dura muito essa impressão. Mal termina Play The Game, em fade out, e já entra uma batida reta, um riff sensacional de May e Deacon. E sim, a exemplo da primeira música... ao vivo Dragon Attack é melhor. Mas ela é beeeem alterada ao vivo, porque em estúdio temos muitos overdubs, de bateria inclusive. Uma novidade, pra mim (percebi só agora mesmo), que o baixo não para durante as estrofes. Achei que ficava apenas Mercury e Taylor, mas não, láááá no fundo, bem baixinho, Deacon segue com a linha. Aliás, Deacon manda bem demais aqui de novo. Depois do "mini solo" de Roger, ele que dá uma soladinha sensacional, manja muito o menino Deacon. Depois temos o solo de May, que começa mais ou menos a 2:30 e vai até o fim da música. Dragon Attack, no fundo, tem um quê de improviso, por isso que ao vivo eles reduziam um pouco ela.

Another One Bites the Dust é a terceira música. Bem, é um clássico, dispensa maiores explicações, certo? Errado. Por pouco, essa música não ficou DE FORA do The Game. A banda achava que era apenas uma zueira, sem maiores intenções. Até que rolou o encontro com Michael Jackson e essa música foi apresentada pra ele. Basicamente, Michael não conseguia acreditar que a banda não queria incluí-la no disco. E, com o faro apurado pro sucesso como Michael tinha, ele estava certo. Quando à música em si, é uma das linhas de baixo mais simples que Deacon criou no Queen, assim como uma das mais cativantes. Com a presença mais discreta da guitarra, limpa, fazendo poucas intervenções, e a bateria com fita tape, abafando mais o som da caixa (coisa que o Roger odiava, inclusive), é o baixo quem comanda a música, e o faz com maestria. O grave de Another One Bites the Dust é pulsante, o tempo todo. Aliás, a ideia da banda de apostar num "solo sem solo" no meio, apenas com a bateria e os efeitos também tem seu valor. Em estúdio não é nada de destaque, mas ao vivo permitia que a banda brincasse com a plateia.

Terminada essa parte mais funk do disco, com duas músicas mais suingadas em sequência, temos meio que uma power ballad em sequência: Need Your Loving Tonight. Não é uma baladinha melosa, como Love of My Life, mas não é um rock mais pesado. Fica num meio termo. É outra música extremamente simples, aprendi os acordes dela com facilidade uma época. A letra, mesmo sendo meio triste, falando de um amor perdido, não consegue se sobrepor à melodia, temos meio que um paradoxo aqui. Mais ou menos o que acontece com Bad Moon Rising, do Creedence. O solo de May é "simples pero cumplidor", Roger e Deacon fazem uma batida mais reta, adequada, e os backing vocals aqui são sensacionais.

Fechando o lado A, Crazy Little Thing Called Love. Outro clássico incontestável, outra música extremamente simples. Pudera, foi composta por Mercury, que, segundo palavras do próprio (quando ia anunciar essa música no show), "sabia dois ou três acordes quando o Queen começou. 10 anos depois, ele continuou sabendo esses mesmos dois ou três acordes, então compôs essa música". Aliás, essa não é a única história engraçada dessa música. Segundo as lendas de estúdio, Freddie a compôs no banheiro, coisa de 10 minutos, e chamou Roger e John para irem direto ao estúdio. Segundo Freddie, "queria terminar logo antes que Brian chegasse, senão tudo ficaria demorado demais". Tinha que ser o Brian e suas 45840375897069 tracks de guitarra simultâneas.

Musicalmente, ela é bem simples, o que faz todo o sentido, afinal, é uma grande homenagem ao Rockabilly. Em estúdio, ela é um pouco mais engessada. Nada de novo aqui, já percebemos que é esse o padrão do som no disco, e faz parte, não que seja um grande demérito. Destaque pra performance mais grave de Freddie e pro solo de Brian. Existem algumas curiosidades interessantes que essa música nos proporcionou. A primeira, que já foi citada, é que temos aqui o debut de Mercury nas seis cordas (não sei se em algum momento da carreira do Queen ele volta a tocar alguma coisa de guitarra/violão em estúdio, pelo menos ao vivo eu tenho certeza que não). A segunda é que Brian, ao vivo, toca o solo dessa música com uma Telecaster preta, o que me leva a pensar que o solo também foi gravado com ela, por causa do timbre, que em nada lembra a Red Special. A terceira é Freddie foi quem fez o primeiro solo de Crazy Little Thing Called Love, mas a versão foi perdida, então Brian teve que criar outro.

O lado B inicia com Rock It (Prime Jive). Música mais longa do disco, com 4:30, começa com Freddie cantando, Brian num dedilhado e John acompanhando, uma morosidade, parece que não vai rolar nada demais... até que Roger entra e a porrada pega. Certamente é a música mais pesada e rápida do disco, rockzão mesmo. Inclusive é Roger quem canta ela, o que explica muita coisa. É uma música divertida, mas não é um grande destaque. Também, perto das concorrentes de antes, tudo fica mais complicado. E essa tendência se mantém durante quase todo o lado B, onde temos músicas muito boas, mas sem o apelo comercial do início do disco. Anyway, são músicas muito boas.

Don't Try Suicide é uma delas. Com uma cara meio de jam, conduzida, no início, por palmas e pelo baixo de Deacon, tem uma letra muito baseada em aliteração, repetição de frases e tal. Não é uma música de se ouvir muito seguido, ela enjoa mais fácil. Mas a ironia da letra é sensacional. Como eu li em outro site, tem uma pitada de Alice Cooper. Quando ao instrumental, ele joga bastante com essas paradas de luz e sombra. A ponte, no meio, é bem maneira, com um toque de Rockabilly também, seguida de uma parte muito maneira de pergunta/resposta entre Freddie e o backing vocal. E termina do mesmo jeito que começou, baixo, palmas e um fade out.

Já Sail Away Sweet Sister é totalmente Brian May. Composta e cantada por ele, é uma homenagem à irmã que ele nunca teve. Além dessa fina ironia, é uma balada simplesmente sensacional, uma das melhores do Queen. A melodia triste combina totalmente com o vocal melódico (ou de emo velho, como eu já ouvi gente dizer xD) de Brian. Daquelas baladas que só Brian sabia fazer, assim como o solo dela. Interessante ressaltar a classe do baixo de Deacon, que sabia como ninguém oitavar quando necessário.

E, mal terminamos essa balada, bem melódica, sentimental e esse tipo de coisa, e Roger começa uma série de batidas com um flanger bem maroto na sua batera. Coming Soon é outro rockzão, ao estilo de Prime Jive, mas um pouco mais engessado. Roger abusa aqui dos tambores, principalmente do surdo. É uma música curta, bem maneira. Quem faz intervenções sensacionais ao final de cada verso é Brian, tão maneiras quanto o solo, que não é nenhum primor, em relação à velocidade, mas tem um feeling demais. O legal que dá pra perceber direitinho as diversas brincadeiras que a banda faz com efeitos sonoros durante a música. Pena que nunca foi tocada ao vivo, assim como as duas anteriores.

Save Me, a música que fecha o disco, foi tocada durante a turnê do The Game e durante a turnê do Hot Space também. A exemplo de Need Your Loving Tonight, a letra é sobre um amor perdido, uma ilusão e tal. Mas nesse caso, a melodia é também muito sentimental, acompanhando a letra. Esse par forma, sem dúvida, uma das baladas mais bonitas que a banda já criou, com pitadas daquele Queen antigo, dos anos 70, como as tracks dobradas de guitarra. Ouvindo ela, nota-se a interpretação mais que realista de Freddie, de quem sofre por um amor. E por que não dizer que isso ultrapassa a interpretação? Sabemos que uma das maiores frustrações de Freddie foi a de não conseguir encontrar um verdadeiro amor, a de, digamos, "não saber amar". E, ao vivo, as versões de Save Me eram ainda mais legais, porque quem começava ao piano era Brian, e só trocava o posto com Freddie logo antes do solo.

Infelizmente, não consegui um vídeo com o disco completo, vou deixar o link pra playlist no canal do Queen :D

Bom, acredito que já me estendi demais por aqui, ainda mais considerando que The Game é o disco mais curto da banda (só ganha do Flash Gordon OST), mas é um disco que merece uma detalhada "ficha", assim como normalmente faço com os lançamentos do Queen. Por hoje era isso, galera. Ouvi dizer que o Leão tá preparando uma postagenzinha maneira sobre o Rainbow, daquela série dele. Quando vai sair eu não sei, mas talvez agora fim de semana. Eu ainda tenho mais uma prova na facul, por isso vou pensar primeiro no planejamento do mês, afinal, depois é férias, e aí vai ter postagem afu. Por enquanto, o negócio é física.

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segunda-feira, 8 de junho de 2015

On the Charts #26: Os 45 anos do In Rock

Os clássicos não param. Mesmo negligenciando alguns discos aniversariantes, a quantidade de disco bom que vai aparecer no On the Charts esse ano é absurda. E cá estamos com mais um desses (hoje que a internet permitiu isso), então vamos lá. In Rock é o quarto disco de estúdio do Deep Purple, lançado em 3 de junho de 1970. Produzido pelo próprio grupo (aliás, que grande diferença, comparado com os trabalhos medíocres das bandas atuais, que contam com o melhor equipamento e se cercam de vários produtores), foi gravado entre outubro de 1969 e abril de 1970, em estúdios de nome na Inglaterra, como o De Lane Lea e o Abbey Road.

Primeiro disco que conta com Ian Gillan no vocal e Roger Glover no baixo, a clássica Mk II, é parada obrigatória para todo apreciador do som da banda. Posso afirmar, sem medo algum, que a grande mudança do som do Purple começa aqui. Sai aquele rock mais sessentista, moldado para o vocal de Rod Evans, e entra o hard, o peso, os agudos, velocidade, todas as características que marcam o som mais conhecido do Purple. Ainda não é a obra acabada, pelo menos na minha opinião. Aqui sobra virtuosismo, temos cinco ótimos músicos que, praticamente o tempo todo ficam demonstrando sua habilidade, fruto de uma maturidade ainda não totalmente desenvolvida. Pra mim, esse ápice de maturidade se deu com o Machine Head, dois anos depois, onde a banda, além de mais entrosada, já tinha uma maior experiência musical, sabendo melhor em que terreno pisar. Mas o Machine Head é outra história (quem quiser conhecê-la, só clicar aqui). Hoje o disco é outro, e vamos logo a ele. 

Começamos com um Big Beginning. Um acorde, a banda toda fazendo bagunça, o negócio já começa barulhento, e se estende até uns 50 segundos assim, até que ficamos apenas com Lord fazendo uma pequena melodia, dando uma acalmada nos ânimos e... "GOOD GOLLY, SAID LITTLE MISS MOLLY!", Gillan entra mostrando por que estava no lugar que outrora fora de Rod Evans. Speed King é rápida, gritada, técnica. A letra, com apenas duas estrofes, conta com várias referências ao velho rock'n roll,  sensacional. Ela é separada ao meio por um belo solo, como sempre os duelos entre Lord e Blackmore. Speed King, ao vivo, era famosa por ganhar versões quilométricas, beirando os 15 minutos. Bom, quando eu falo que a tônica da banda era essa, de optar mais pela virtuose, é aí que eu me refiro. Os shows da turnê do In Rock, não raro, tinham seis ou sete músicas no setlist. E shows de uma hora e meia, claro.

Seguindo, temos Bloodsucker. Tenho que admitir que foi muita coragem do Gillan regravar ela lá em 1998, no Abandon. Outra música sensacional, completamente negligenciada na época do Blackmore, assim como muitas músicas dos quatro discos clássicos da Mk II. Músicas como Rat Bat Blue, Hard Lovin' Man, Maybe I'm Leo, entre outras, só foram conhecer uma versão ao vivo com Morse nas seis cordas. Chola mais, viúvas do Blackmore. Mas voltemos à música. Um riff grudento, como a maioria que saía das mãos de Ritchie, a banda dando uma segurada maior no improviso, deixado apenas para Gillan a tarefa de alcançar agudos inacreditáveis ao fim de cada estrofe. Adoro o solo dessa música, além de ser divido entre metade guitarra e metade teclado, sempre tem uma quebrada antes de cada volta, mostrando o grande entrosamento da banda.

Fechando o lado A, Child In Time. Bem, é um plágio uma música (mas sim, o Purple, infelizmente, plagiou uma parte da harmonia) que dispensa maiores explicações. Grande clássico da banda, é uma música de 10 minutos que conta apenas com oito versos, repetidos duas vezes. Como isso? Deep Purple dos anos 70. Além dos oito versos, Gillan faz uma vocalização, progressivamente mais aguda, até chegar num momento que... bem, não é à toa que eles não tocam ela há quase 15 anos ao vivo (e, decentemente, há uns 20). Child in Time tem um formato muito similar a algumas músicas do Rush, como The Camera Eye e Xanadu (principalmente a primeira). Ela é construída ao longo dos primeiros seis minutos. Os primeiros três contam com Gillan, os últimos são de solo, onde a banda vai crescendo progressivamente, aumentando a velocidade e o volume. Ao final desse solo, tudo para e, praticamente, voltamos ao início. Os últimos quatro minutos são, basicamente, a repetição de parte dessa sequência. Não considero isso repetitivo, de maneira alguma. É uma música épica, feita em uma época que a preocupação do ouvinte era, de fato, ouvir a música por completo, saborear cada minuto.

Pra iniciar os trabalhos no lado B, Flight of the Rat. Essa sim, totalmente negligenciada pela banda, a única música do disco que nunca conheceu uma versão ao vivo, mesmo sendo um puta som. Um riff simples, rápido, uma letra um tanto quanto divertida. Aqui o solo começa com Lord, passa por Blackmore, depois por uma seção muito funkeada e, após mais de dois minutos de solo, temos uma paradinha e volta o riff do início, para Gillan entrar de novo, repetir o início da letra. Logo após, temos uma outra seção mais funkeada, mais uma volta do riff, e chegamos ao final, onde tudo para, Gillan grita "please stay away", e Paice, sozinho, começa a repetir uma sequência de notas, alternando entre mãos e pés. Começa devagarinho, e, ao longo dos últimos 30 segundos da música vai acelerando insanamente.

Após esses últimos 17 minutos, que representaram "apenas" duas músicas, chegamos à música mais curta do disco. Ainda assim, contando com apenas três minutos e meio, Into the Fire conta com Gillan gritando muito, quebradas, solo de Blackmore e Lord, um final longo, enfim. Já fui mais encantado por ela em outros tempos. Vi ao vivo em 2009, e o Gillan ainda manda bem, dentro do possível, apesar de ter quase 70 anos. Um dos motivos de eu não ser tão encantado assim com ela é esse fato dela NUNCA sair do setlist. Mas é um belo som, sem sombra de dúvidas.

A penúltima música é Living Wreck. Ela certamente seria tão underrated quanto Flight of the Rat, não fosse a banda tocar ela ao vivo algumas dezenas de vezes, em 2006. Ela começa com Paice fazendo uma levada um tanto quanto funkeada, entrando em fade in. É uma música bem divertida de tocar. Aliás, falando em divertida, o que é essa letra? Som simplesmente sensacional, simples, mas intrincado. Ela é mais calma, comparada com as outras, mais parecida com o que a banda viria a fazer em músicas como Strange Kind of Woman e Maybe I'm Leo.

Fechando com chave de ouro esse clássico, Hard Lovin' Man. Outra que começa com um "Big Ending no início", mas bem mais curto, apenas dois acordes e, logo com 20 segundos, Glover já manda a melhor linha de baixo do disco. Esse estilo mais cavalgado vai seguir durante toda a música. Aqui, sem dúvida, os maiores destaques são Lord, Glover e Paice. Apesar de Blackmore tocar bem como sempre e Gillan gritar um monte, não chamam a atenção pra si. Tanto que essa música só entrou no setlist a partir de 2010, e de lá não saiu mais. É uma música longa, cheia de solos, então é melhor pra preservar o velho, mesmo que ele tenha que gritar um pouco de vez em quando.

Pra se ter uma ideia do que estou falando, até os três minutos e meio, o solo é apenas de Lord. Aí Gillan entra, com um pequeno gongo (como ele o faz ao vivo também), para toda a música, e voltamos, agora com Blackmore solando. Aqui a letra é estilo Gillan das antigas, beeeem sugestiva. No final, também contamos com bastante improviso, Blackmore começa a solar e toda a banda desaparece, ficando apenas ele por alguns segundos. Após isso, a banda volta e o som começa a ficar cada vez mais "bagunçado", até que sobra apenas Blackmore de novo, arranhando as cordas da guitarra, fazendo aqueles finais estilo show. Confesso que o disco poderia acabar de forma mais impactante, mas, depois desses 43 minutos, o ouvinte já está anestesiado. E assim terminamos esse clássico.



Edição de 25 anos: entre os extras,
lá está Black Night.
Uma curiosidade interessante é que Black Night não entrou no disco porque faltou espaço. O maior clássico desse disco foi feito pela banda para ser single. Foi mais ou menos o que o Purple fez com Strange Kind of Woman, no disco seguinte. O auge da banda era tão monstruoso que fomos brindados com outtakes, singles que viraram os maiores clássicos. Por isso que eu sempre defendo muito o Purple, em relação a esse menosprezo que ele recebe estando entre bandas como Black Sabbath e Led Zeppelin. Se o Purple tivesse acabado em 1976, seria uma das maiores da história também. Quis o destino que eles voltassem em 1984. Se, por um lado, a banda sacrificou essa "mística", essa grandeza, nos brindou com a oportunidade de assisti-los ao vivo atualmente. E, sinceramente, prefiro essa opção.

Bom, galera, por hoje era isso. Desculpem pela enrolação, mas achei melhor deixar a postagem da Bruna ir sozinha pro blog sábado. Duas postagens no mesmo dia tirariam o impacto individual de cada uma. Valeu! 

domingo, 10 de maio de 2015

On the Charts #25: Os 35 anos do Heaven and Hell

Aproveitando essa onda do metal, mais um belo disco lançado em abril de 1980. E, coincidentemente, é a postagem 25 do On the Charts, sobre um disco que completou seus 35 anos em um 25 de abril. Mas numerologias à parte, vamos ao que interessa.

Heaven and Hell é o nono disco de estúdio do Black Sabbath, lançado em 25 de abril de 1980. Primeiro a contar com o saudoso Ronnie James Dio nos vocais, foi um grande sucesso, que fez voltar a força do nome do Sabbath após alguns lançamentos de gosto duvidoso com Ozzy, como Technical Ecstasy e Never Say Die, além de mostrar uma mudança na sonoridade do grupo, voltando ao maior foco no peso, e não na experimentação. Ainda assim, é um estilo diferente do peso na era Ozzy, e, sem dúvidas, isso tem a ver com a entrada de Dio na banda. 

Basicamente, todas essas coisas aconteceram porque a situação do Sabbath com Ozzy ficou insustentável. A banda alugou estúdio nos EUA pra começar as gravações e, segundo os próprios integrantes do Sabbath, no documentário God Bless Ozzy Osbourne!, Ozzy passava o dia inteiro chapado, deitado no sofá e falando que tudo que eles tocavam ali era uma merda. Como o resto da banda viu que, caso Ozzy ficasse no Sabbath, poderia acontecer dele não sair vivo das sessões do disco, o demitiram, "para seu próprio bem".  Além disso, Geezer passava por uma época complicada, com o seu divórcio e tal, Bill Ward estava com alguns problemas de saúde e, por algum tempo, o Sabbath ficou meio desfalcado. Mesmo assim, diante de todos esses infortúnios, nasceu Heaven and Hell, numa prova cabal de que "há males que vem pra bem". 

Começamos esse disco clássico com um som clássico: Neon Knights. Sem firula, todo mundo entrando junto, num som rápido, as guitarras de Iommi mais cortantes do que nunca. Bill Ward me surpreende aqui. Sempre o achei meio superestimado, inseguro, como se fosse perder o tempo facilmente, mas ele entrega uma levada precisa, forte e muito técnica. Além disso, Geezer, apesar de se limitar um pouco aos acordes de Iommi, tem os momentos de brilho, com variações repletas de feeling na linha. Dio, como era de se esperar, tem uma performance sensacional. Muito provavelmente não vou comentar as letras de Dio porque, né, uma vantagem de se ter Ozzy na banda era essa. Dada a incapacidade do Ozzy fazer uma letra decente, Geezer era o letrist
a. Daí saíam coisas maravilhosas, como War Pigs, Children of the Grave, esse tipo de coisa. Com Dio, as letras ficavam sob sua responsabilidade. Aí, como de costume, entramos no "fantástico mundo do metal", com as letras sobre arco íris, feitiços, bruxas, dragões, cavaleiros, etc.

Seguindo, temos Children of the Sea. Não foi uma música feita pra fazer sucesso, vender e tals, mas é muito querida pelos fãs, com justiça. Apesar do disco inteiro ter um nível altíssimo nas composições, ela é um dos destaques. Começando calma, naquela atmosfera de metal melódico, Iommi traz um belo dedilhado com Geezer fazendo uns fills. Dio entra e traz consigo uma letra um pouco melhor do que a anterior, mas também não é nada de destaque. Mais ou menos pelos 40 segundos, Ward entra e aí a porrada come solta. Uma levada arrastada na bateria, ao melhor estilo Sabbath das antigas, Dio largando seus agudos clássicos, Geezer mandando uma daquelas linhas complicadíssimas, lenta, mas, quando é necessário, com muita velocidade entre as notas. E, falando em velocidade e feeling, tenho que ressaltar o solo, simplesmente sensacional, porque não é apenas um solo de Iommi com a base da cozinha da banda. Ward e Butler fazem um trabalho sensacional, com sincronia.

Lady Evil é a terceira música. Apesar dela ter uma certa semelhança com Smoke on the Water (e com algumas músicas do Purple na época do Perfect Strangers), no início, é uma música com um certo balanço, cortesia de Bill e Geezer. Iommi faz umas intervenções sensacionais durante a música, na guitarra solo, Dio também soa muito bem aqui. A letra, apesar da temática de sempre, de bruxas e etc, teria, certamente, uma interpretação distinta se fosse uma música do AC/DC, por exemplo.

Pra fechar o lado A, temos a faixa título. Grande clássico do Sabbath da era Dio, faz justiça a todo o hype. Começando com duas voltas do seu riff clássico, e depois entrando naquela eterna estrofe, onde Bill e Geezer se destacam. Aliás, aqui tenho que ressaltar a letra de Dio. Disparadamente a melhor letra do disco, repleta de antíteses, frases que fazem pensar. Entre tantas letras de temática fraca, essa se destaca, e muito, no disco. Além disso, temos o sensacional solo de Iommi, arrisco a dizer que é o melhor do disco. Principalmente porque o final de sua primeira parte nos traz a um break, seguido do gran finale, acelerado, pesado e... não, pera aí. Do nada, tudo para e ficamos apenas com Iommi ao violão, mandando um belíssimo dedilhado. Assim termina esse puta som e o lado A do disco.

Abrimos o lado B com Wishing Well. Boa música, mas entre tantas canções de destaque, com certeza ela acaba ficando aquém do average do disco.  Temos aqui um bom riff, uma performance inspirada de Ward e um violão que dá uma nuance bem interessante pra música. Mas em geral é apenas outra boa música do disco. Já Die Young, a música seguinte, é um dos grandes destaques da bolacha. Começando com um teclado, que pouco havia aparecido antes, e Iommi solando em cima, dá a impressão que seria uma música mais melódica, lenta e tal. Eis que a banda entra e, novamente, temos uma música rápida e pesada, ao estilo de Neon Knights. Aqui Dio também nos brinda com uma letra melhor do que de costume, com algumas metáforas sobre vida e morte, um pouco filosófica e tal. De destaque, a performance vocal dele também impressiona, além da ponte no meio da música, genial.

Walk Away é a penúltima música do disco. Confesso que o riff parece mais coisa do Paul Stanley do que do Iommi, mesmo sendo um baita riff. Na real a letra é muito estilo Kiss. Sinceramente, não sei o que essa música tá fazendo nesse disco. É um puta som, mas nunca, tipo, NUNCA imaginei que o Sabbath fosse fazer algo do tipo. Sem falar que uma música falando de uma mulher atraente fica bem deslocada entre músicas falando sobre morte, bem e mal, céu e inferno, etc. Destaque para Geezer, que, mais uma vez, manda bem demais aqui.

Pra fechar o disco com chave de ouro, talvez a melhor música do disco. Respeito Heaven and Hell e sua grandeza, mas Lonely is the Word é simplesmente magistral. Aqui tá todo mundo na ponta dos cascos, mostrando toda a técnica. Ward e Butler simplesmente destroem na cozinha, enquanto Iommi manda uma parede sonora e Dio alcança agudos altíssimos, além de longos. Isso sem falar no solo, jogando, de forma sábia, com luz e sombra. Aliás, os solos, afinal, mais de 3 minutos da música são compostos por solos de Iommi. Mas, sem dúvida, são bem gastos. Assim como os quase 40 minutos que separam o início de Neon Knights do final de Lonely is the Word.



Além de ter sido sucesso no meio do rock, entre os fãs da banda e tal, Heaven and Hell foi um sucesso comercial, chegando ao número 28 dos 200 da billboard. Pros fãs que sempre curtiram essa fase da banda, duas pequenas oportunidades de rever esses clássicos ao vivo foram concedidas pela turma do Iommi. Primeiro, uma reunião que resultou no lançamento de Dehumanizer (pra quem não sabe, o Leão escreveu sobre ele, só clicar aqui), onde, inclusive, o Sabbath veio pra Porto Alegre pela primeira vez, e depois com o Heaven and Hell, basicamente uma reunião do Sabbath com o Dio (além de Vinnie Appice na bateria), que surgiu por causa da gravação de duas músicas novas do Sabbath, para uma coletânea, lá em 2005. O Heaven and Hell durou 4 anos, inclusive com o lançamento de um disco de inéditas, mas teve que interromper suas atividades por causa da doença de Dio, a qual, infelizmente, acabou o tirando de nós um pouco antes do desejado.

Bom, acho que por hoje eras isso. Como estamos mais ou menos a uma semana antes de fechar 5 anos sem o mestre Dio, dedico essa postagem a ele, que deve estar mandando muito bem nos palcos lá de cima (ou de baixo, quem sabe?). Não esqueçam de curtir nossa página do facebook, pra dar aquela força, além de nos seguir no twitter. Valeu!